quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

K

Para lá...

Sentou-se no lusco-fusco

entre duas pedras de maresia.

Um vento de além-vida

cobria-lhe gentilmente

os cabelos de sal.

Sentara-se ali

havia minutos;

trezentos e noventa anos antes,

uma memória vislumbrara

a nesga do porvir duma nação,

aquilo que a salvaria

de si mesma.

Um rei, um príncipe, um povo,

"uma Fé, um Império".

Sobrara o sonho, os cabelos salinos.

Um vento carregado de naus

enchia-lhe os pulmões

e o sentir,

de uma História

que lhe era tão hereditária

como a cor dos cabelos de sal.

Uma Nação fora para lá de Alexandre,

no seu regresso trouxera o esquecimento...

a que nem Alexandre fora votado.


"Malhas que o Império tece..."
(imagem retirada da net)


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terça-feira, 30 de dezembro de 2008

K

parti - turas

As fronteiras esparsas,
os vincos estreitos.
A tristeza submersa
em olhos de carregados;
o embrulhar-se em si próprio,
os pulsos algemando os joelhos.
A mente estacada, distante,
cosida aos olhos cegos
num finíssimo adaggio.

(Lá vai o maluco, lá vai o demente...).



Um subtil despertar,
lento, suave
mas em progressão aritmética;
a mente desatando-se,
os joelhos libertando-se,
a tristeza transmutando-se
em sorriso largo.
Os pulsos berram de gozo!
A língua destrava-se em mil librettos!
O desejado allegro vivacce!!...
Os bolsos alegremente ocos...

(ou julgas que não existe ninguém que te veja...).

O amanhã fugiu serra acima;
este nanossegundo é,
e nada mais.
Há que trepar vida fora
para que a queda seja ainda mais fragorosa,
de borco para o nada,
para as lágrimas,
desejosas de lavar memórias.
Por que queres ser
"Requiem" e "Concerto em Ré Maior"?
Porquê a sumptuosidade,
porquê a soberba magnificente do génio?

Sofrer sempre,
ser ditoso
numa leve pausa
entre dós...


(em itálico, fragmentos de António Variações)
(imagem retirada da net)




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domingo, 21 de dezembro de 2008

K

Natal do poeta

Esperarei sempre esse nascimento,

estranhamente anual,

mas todo o divino é distinto,

vário,

singular...

Nasce comigo o calor,

o aconchego

que só um Deus sabe dar.

Os homens podem virar-se as costas;

mas até as pedras gritarão

que Jesus nasceu


e que os brinquedos,

e as correrias,

e todos os vendilhões do templo,

e as luzes,

se ensombram pelo Seu fulgor .

Só o poeta,

aferrado ao verbo

que compartilha feliz,

é abraçado pelo Deus Menino,

que lhe honra as palavras.

E uma cintilação se esparsa,

suave,

amena,

por todos os lugares,

traz o esquecimento

e deixa as lembranças

das palavras simples,

brandas,

claras,

do poeta

que aquele Menino abençoou...
(imagem retirada da internet)

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sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

K

medievo





Caí-me sobre o caos.


Meus braços, pernas, todo


pendiam como roupa pendurada


numa qualquer ruela medieval.

Um velho suor,


doutras paragens,

transbordou de dedos


fatigados de batalhas


de outros,


para outros.


Só me restavam as armas


e memórias de sangues.


Só armas,


memórias apagadas


de verde,


muito verde,


das colheitas de nós.


Com a espada não se ceifava;


nunca se havia ceifado,


ou feito o que fosse.


Pintarroxos, grilos,


já não o metal,


a imprecação.


Endireitei-me,


a espada sob o queixo;


nada era dos meus olhos;


então, meu exército,


pela primeira vez,


retirou.


Sem plano de batalha,


derrotado por si próprio.


O inimigo: eu mesmo.

Dera-me a el-Rey.


Nada tinha,


nada era.

Um espírito malquisto,


uma maldição errática.

O esconjuro de ter sido d'el-Rey...


Deus guarde el-Rey!



(Foto tirada da net)












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quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

K

regresso/ida





...de regresso a um ponto,

sem coragem;

um amargor desperto,

que nem reacendeu,

sequer,

memórias agonizantes.

Caminhou,

deixando traços no pó.

Afastava-se aquela figura adelgaçada,

partindo sem a ousadia

(do regresso).

Sim, o arrebatado

(algures)

já não reacende.

As amendoeiras, essas,

carregavam a sombrados seus passos,

um ponto entre bagos de pó,

afunilado por um Sol baço

quase esquecido...


(inspirado num poema de moriana)


(imagem retirada da net)

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terça-feira, 16 de dezembro de 2008

K

(homenagem...)

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim



(Natália Correia in Defesa do poeta)






Quero um lápis,

uma tecla,

não, muitas teclas!


Quero escrever-me,


e desafogar-me.


Quero esfolar-me as entranhas,


o juízo, a demência absurda


de quem só já tem a liberdade.


Quero ser a antecâmara insuportável


do nascimento,


da morte (in)esperada,


da alegria e da felicidade e do perdão,


e da fúria e do choro e do ranger de dentes.


Sim, quero chegar a minha vida aos outros,


sem que eles me conheçam


e me execrem ou aplaudam
A indiferença com que os miro,


leva à rojo minha capa de desprezo.


Quero, com o que escrevo,


viver,


mais


e mais


em mim!!

(fotografia retirada da internet)

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domingo, 14 de dezembro de 2008

K

ocularis

Diz-me que desprezo é esse
que não olhas pra quem quer que seja,
ou pensas que não existe
ninguém que te veja
(António Variações)



Meus olhos tropeçam

no esguio ar dos outros.

Arrogo-me ao desdém

e caminho

num luto por mim mesmo.

Meus olhos implantam-se

nos negros que vêem;

tropeço em memórias,

sinais.

Olhos inquisidores,

olhares, sempre olhares.

Cúmplices, reféns

de minhas mãos

que os embalam,

que os regem,

em majestosa cadência,

em sumptuosa ínsula...



(foto retirada da net)

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sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

K

o que carregas


Palavras ecoam,

entre rios,

paredes vagas.

Sorrio-me:

à madrugada

que carregas,

às letras, sintagmas,

Pessoa, é certo.

Tacteias um espaço

escondido nos teus limos,

nesses teus musgos,

que só o Sol sabe.

Ganhaste o tempo, brindou-te o caminho,

o teu canto é a tua paz!!


(inspirado num poema de Helena Domingues)
(imagem retirada da internet)

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K

Vontade d'el-Rey

Eras fraqueza.
Tua pele macia
levava-te ao sangue
num olhar.
Eras hipótese.
Sem certezas,
uma melancolia derramava-se
do teu ventre.
Eras cobarde.
A valentia fugira-te
havia muito.

El-Rey quis-te,
era a guerra.
Fugir?
Vestiram-te,
armaram-te:
um cinto de guerra,
braços e pernas
escondendo tua frouxidão.
Um escudo p'ra covardia.
Um capacete ornando
fantasias ausentes.
E a espada!
Cintilância na morte,
abrigo da vida.

(...)

Transfiguraram-te!
Da fraqueza, genica.
Da hipótese, tese.
Da cobardia, possança.
El-Rey te quis,
tu te tiveste,
guerreiro sombrio,
no rubro da contenda,
a morte escorrendo
pelo mundo abaixo.
Os olhos em El-Rey,
pés avançando
por seu novo jugo.

(...)


Vontade d'El-Rey,
acatam os homens,
o Império engradece,
a humanidade prostra-se!


(Grafitti situado em Telheiras, Lisboa)






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K

harmonia mundii

(...) em curvilínea lassidão.
Achega-se a ti.

Não há temor,

sorris ao seu riso,

dois, três alvos momentos,

abraças-te em pureza,

em quase inocência.

Tuas vestes alvas

levam-nas a brisa

de um mar que escorre perto de ti.

Regressam ao riso,

à prisão do olhar.

Reflectes-te, já tarde,

na maldição dum anjo, tornado negro,

por cintilarem teus olhos...
(baseado num poema de moriana)

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segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

K
Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes
(Carlos Drummond de Andrade)

Eu também já fui marinheiro,
Bastava olhar o oceano
subia aos pináculos
Da memória e do sal da vida

Eu também já fui fadista
Bastava um trinado
a voz brilhava
e coros angelicais se vazavam em círculos de claridade


Sei agora,
que tudo o que fui,
escorregou,
fluiu,
e me perdeu
em esquinas
espumosas duma vida,
que, por frete,
por indiferença,
vou consumando
até o poeta, o marinheiro e o fadista se encontrarem
num ponto que ignoro.
K

Ferreira do Alentejo

O Inverno ia no solstício.
Samarra, botas,
despedida adiada.
Ficou aquele Sol frio,
quase acolhedor.
O silêncio,
sempre.
Rumores de brisas.
O canto dos juncos
embalados nos sapais.
Duas cotovias dispersas.
A lareira amena.
Um sino ao longe,
chama ao borralho.
O Inverno incitara a chuva.

Silêncio.

Alguém se senta num poial.
O Sol porfia aquela luzerna.
O cheiro das filhós
trá-los de volta.
Há um nascimento
que os invoca.

Silêncio.

Crianças em roda,
a mesa abastada,
a alegria toda,
um sussurro terno
sob aquele Sol de Inverno.
(a moriana, pela inspiração...)
(foto extraída da internet)

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domingo, 7 de dezembro de 2008

K

in aqua


Sobre a urze silvestre, ao subir da montanha,

Uma gota de orvalho, em manhã de esplendores,

Lucitremia ao Sol numa teia de aranha,

como um prisma em que a Luz se decompunha

[em cores.

(Gota de água, António Feijó, in Sol de Inverno)


Beijei tuas folhas trémulas,

naquela manhã

de Sol caótico,

madrugador,

em que se tremia,

em veredas invisíveis,

em que a montanha estava para lá

do dizível.

Mirei um reflexo teu,

urze silvestre,

o orvalho baço escalava-te,

abraçando a aranha,

em trémulos beijos,

quase virginais.

Invejei-te,

pelo Sol,

[que]
me mirava desdenhoso,

pelo teu orvalho mudo,

pelas aranhas

tuas companheiras de vida em luzes cálidas e díspares.
(imagem retirada da internet)

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

K

terra, ar, fogo, água


Enrolei o mar,

sob os braços;

as narinas imersas

no grito pulsante

da vaga

solta até à Lua.

Águas trémulas,

remoinhos pétreos,

sábios vazios.

(...)

Escalei a montanha,

estendi o mar sobre a relva;

desencontro de longas memórias.

Onde estavam tantos outros?

Para onde a púrpura do poente?

As águas esquecem as fúrias,

em oráculo se quedam...

(...)

Então,

ao leme da alma

ergui-me,

sorrindo à luz, ao calor, ao vento, à bruma

e fui, em passo de pastor,

fruindo a vida...


(inspirado num poema de blindness)
(foto retirada da internet)

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quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

K

come out, come out wherever you are


O medo possui-me.
Sabe-me.
Na minha almofada,
ele escorre-se
tão lesto,
que temo a sua partida.
Brilha-me os olhos no escuro,
mostra os dentes quando acordo.
Fico inseguro,
laivos em pernas trementes.
Canto-lhe "lullabies",
sonda-me em jeito de quase fim.
Onde pára a sua alegria vampírica?
O seu jeito de borboleta?
Caminho longe,
passos quase firmes,
segue-me um Frodo bamboleante...

(a partir dum poema de moriana)
(imagem retirada da internet)

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terça-feira, 2 de dezembro de 2008

K

demente

Lá vai o maluco,
lá vai o demente,
assim te chama toda essa gente.
Mas tu estás sempre ausente
e não te conseguem alcançar.

(António Variações)



Sim,

tenho os olhos,

guardados na gaveta das dobras

onde fica a dor de ontem.

Extraí e destilei a fuga;

caminhei lado a lado

com a raiva do nada;

o medo esgueirou-se
pelos pensamentos adentro.

Houve receios almejados,

marinhando pela alma longe,

fugidia.

O povo sabia o demente,

e nada tinha;

o demente tinha o ser,

o finito,

o nada,

o tudo,

o dobrar-se na fantasia,

e adormecia nos baixios

da memória.


(foto extraída da internet)


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"[...] Apesar de tudo o que se passa à nossa volta, sou optimista até ao fim. Não digo como Kant que o Bem sairá vitorioso no outro mundo. O Bem é uma vitória que se alcança todos os dias. Até pode ser que o Mal seja mais fraco do que imaginamos. À nossa frente está uma prova indelével: se a vitória não estivesse sempre do lado do Bem, como é que hordas de massas humanas teriam enfrentado monstros e insectos, desastres naturais, medo e egoísmo, para crescerem e se multiplicarem? Não teriam sido capazes de formar nações, de se excederem em criatividade e invenção, de conquistar o espaço e de declarar os direitos humanos. A verdade é que o Mal é muito mais barulhento e tumultuoso, e que o homem se lembra mais da dor do que do prazer."

Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico. Leia, assine e divulgue! Sopro Divino

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