segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

águas

Caem farripas,
musgos,
satura-se o ar
nas fendas do tempo.
Humedeço os lábios
e agarro os líquenes
que me sustêm,
b
 a
  l
    a
     n
   ç
  a
n
d
 o.
Há falésias,
há cavernas
iluminadas,
entre os fetos,
os salgueiros,
os lírios.
Saturo eu e o ar,
a roupa ensopa-se,
esvoaçam memórias,
essas secas,
desejo imberbe
de carícia.
Renuncio ao objecto,
à farra desonesta
que me envolve,
e o retrocesso é caminho,
a vida flui,
já enxuta,
caminho a pé seco de virtudes...

("Lembra-te sempre da
tua juventude,
não a dês por perdida;
tu és todo inteiro,
desde os tempos da
inconsciência."
Fala de Aristóteles a
a Alexandre (o Grande)
antes da jornada)
(fonte da imagem:
http://www.unicamp.br/fea/ortega/eco/fotos.htm)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Laranjeiras



Cansaço, lassidão

até a memória dói,

percorro os olhos,

numa ansiedade 

desconhecida;

perto de mim,

um sorriso, 

só;

laranjeiras pintam

uma cena 

assaz prostrada,

e o tal sorriso,

afasta-se

enquanto,

ali mesmo,

jaz a minha sombra,

despudorada...

("Suporta os tempos de agora,
faz da tua memória um moinho.
Quando o sol voltar a brilhar,
serás o primeiro a sabê-lo."
Fala de Anaxágoras a Xenofonte)
publicado em 19/1 às 20:42 
em facebook
(fonte da imagem:
http://www.topguimaraes.com/en/restaurantes-e-snacks-de-guimaraes/item/147-quinta-das-laranjeiras.html)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Na Flandres

underwater cave

Tanta tristeza...
    nem a alvorada traz o recolhimento...
    o sono nem deve existir no seu pesar
    e os caminhos empoeiram a memória...

    O marulhar palpita-me o coração...
    ouço os meus batimentos
    nas têmporas das cavernas marinhas...

O Sol apenas se põe no horizonte...
   o alvorecer há muito que se despiu,
       lentos são os cânticos chorosos...

    Há um portão, um marulhar de vento...
    um claustro, uma cela fechada,
    água rindo pelas paredes...

A cela morre de si para si...
     o horizonte desmaia, doce...
     na Flandres já não há tropas...

entre os musgos,
há essa cela,
esse silêncio húmido,
os restos de uma viagem
sem partida,
um sossego malsão...

(a partir de um poema de
marés publicado no seu
blogue)

("Quando estiveres desamparado,
lembra-te que o teu caminho é outro,
não carregues só o que te não pertence."
Fala de Pitágoras a Asclépio, seu protegido)

(fonte da imagem:
http://www.hotelclub.com/blog/five-adrenaline-thrills-in-hawaii/)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Cordame

Vesti-me de vento,
calcei os sapatos
das boas novas,
ergui os olhos
e envolvi-me
nos tapetes relvados
da imaginação a galope
à garupa da memória.

Lembras-te?
Soltaste o cordame,
zarpaste
em onda triunfal.
Fui a tormenta
que te relegou,
querida maruja,
para os abismos
esquecidos.
Os teus marinheiros
não te trouxeram boas novas
nem ventos amáveis.
 
Agora, 
apenas sonhas
o cingir das águas,
guarda de honra,
pretoriana...
morrendo sem se render,
em doce, doce entrega...
 
(fonte da imagem: