quarta-feira, 17 de setembro de 2008

há caminho?


Longo é o vento

que me leva.

O caminho, solto, a gravilha desfeita

em bolas silvestres.

Estrelas derramadas,

céu cadente,

velando os seus.

A vontade esfumou-se,

assim,

deslizando numa métrica casual.

Um ar, em atalho de Norte,

levou-a silente;

às sete horas

a Lua despediu um Sol mortiço.

Gaivotas sossegam,

há estradas que jamais se cruzarão.


(a partir dum poema de Nucha)

lar de volta


Cada canto sorri ao meu olhar. Cada canto também se recorda dos meus olhos, do meu corpo.
O soalho estala de prazer e o ar cintila ainda mais depois da separação.
Sento-me. Deixo-me enredar pelo ar faminto que me leva e traz. Nem sinto a rua, o barulho lá fora.
Apenas os cedros, os linhos, as maciezas, duma casa que torno rústica, me afagam e despertam.
Ouso mil sorrisos e sinto-me abraçado de volta.
Sou daquilo que espreito e as saudades são laços, são carris, são trilhos que me trazem de volta.
(a partir dum pensamento de moriana)

sábado, 6 de setembro de 2008

shutting silences down


going through the waves,

shutting silences

wherever,

smiling favorite laughs;

a heart,

whence?

A vow,

escaping down my sudden eyes.

And a photo, silently posing

as an effortless

work of baroque art.


(a partir dum poema de moriana)

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

fotografia


Aqui perdia a vista,


ganhava o sonho.


Aqui sorria ao mundo,


cambaleava na paixão


do iridiscente,


adentrava-me na loucura.


Aqui poisava o braço,


o queixo,


o riso já maduro;


como criança mirava o vento,


fulgurante de mil cores;


aninhava-me nos prados,


nas colinas,


banhava-me nas águas,


fluindo na memória,


escorrente em encantos


dum outrora já fugido;




e ria... ria muito,


ria como se fosse


o meu último riso,


no meu último leito,


na minha derradeira espera.
(inspirado num álbum de blindness)
(Fotografia de J.N.)

janelas


já as janelas se esgueiram,

e os campos se cobrem de fluidas
sombras.

Há pousio;

o sol foge,

a noite abraça-o.

Nas janelas,

já escuras,

rostos velam as manhãs.

Ali ao lado,

o mar,

sensível em algas de ouro,

em ritos de escuridão.

Há um ar opresso,

uma lua fumegante,

uma paz...

em prenúncios,

em quietudes desertas
de alguém já esquecido
(
a partir dum poema de moriana)
(Fotografia de J.N.)