terça-feira, 29 de setembro de 2009

K

geografias

Não sei se o caminho sou eu,
ou se é ele que me produz,
se as nuvens fazem desenhos,
se é o remorso que me seduz.

[Em vão atalho pelo caminho,
difuso, ignaro, 
que sempre me afronta;
em vão busco um silêncio,
uma agonia imperativa,
um espaço caiado,
um sepulcro
perdido nas lamas
imensas,
tão distantes...
e levemente relembro a geografia,
alva, baça e luzente,
daquele geógrafo que nunca serei...]

(inspirado em excertos
de um poema de Valerio Magrelli publicado por moriana)
(imagem retirada da net: "O geógrafo" de Vermeer)

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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

K

soneto do pé quebrado

sobrou o tempo da meninice,
das memórias a preto e branco,
do olhar claro, da meiguice,
do Alentejo seco, sempre campo

olho os retratos daquele tempo,
em jeito de sorriso mal disfarço
uma saudade vivaz, o desalento
de alguém chorando num abraço

sou feliz hoje, não o nego
a vida soçobra-me dos braços,
sinto a guerra ou o sossego,

mas logo vibra alto o meu ego,
ergue-se e logo ensaia os passos
de uma vida clara, sem nós cegos

(autoria Richard Abston em http://www.phot.net/)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

K

mirante

Passei o promontório
do medo,
cruzei os remos,
em jeito de espera;
dois olhos secos
como a dureza d'areia,
fixaram-me
como se o caudal das suas íris
me tornasse ainda mais pagão,
ainda mais gentio.
Suportei as miradas,
e remei,
remei sempre 
em navegação de doce agonia,
como se os meus caminhos
fossem verdugos,
ou
ásperas calçadas.
Depositei o meu olhar
na crueza daquele
tão nobre e frio;
logo,
arquejantes, 
se entranharam:
o meu feito vadio,
o outro vadiando livre...











(imagem retirada da net,
do filme "clockwork orange")

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terça-feira, 22 de setembro de 2009

K

tédio

o sopro de vida que me leva
pelo quotidiano assim demente,
traz-me, também, o néscio absurdo
de um enfado que se não sente













(imagem retirada de
http://www.abcgallery.com/:
"Ossificação prematura
de uma estação de comboio",
Salvador Dalí)

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segunda-feira, 21 de setembro de 2009

K

um Outono...

Os soluços desfeitos,

a claridade possível,
o abandono,
o pesar
(o quase estado de graça)...
rasteiraram-me no quotidiano
solto,
augurando silêncios pardos;
sei que partiria descalço,
trajado nos rigores daquele Outono
descaído,
quási pobre;
o caminho das ondas
trouxe-me vaivéns de sal,
do tempo em que à janela
largávamos pinturas,
e risos e gestos
caídos nos solos de velhas guerras;
solto agora o meu tempo:
há duas, talvez três auroras,
infinitos ocasos
engendram palavras,
poemas (quem sabe?),
mas era a obscuridade
que, insidiosa,
se espalhava

{como urtigas por campos de linho dentro...}
(inspirado a partir de um poema de marés, publicado no seu blogue marés de espanto)
(imagem retirada da net)

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K

algoz
















Supremo algoz.
Autêntico, aquele sangue
debruado na sua gola.
Sussurrava-se uma velha fábula,
sobre um límpido,
casto senhor,
que perdera o querer,
por mor duma paixão,
uma paixão solta.
Hoje, florescia a ausência,
o nada.
Renascer assim um homem?
Nunca!
Singular criatura,
singulares mãos,
singular consciência a dele…
(deriva a vida à sua vista),
já nem sequer suspira…
Novo suplício ,
nova morte
embrulhada entre paredes.


(…)


E se houvesse um salsifré,
ainda mais escaganifobético
este poema se tornaria!...

(10º Jogo das Palavras in Eremitério, um excelente exercício e do qual se sente muita falta)
(imagem retirada da net, ilustração de Paulo Araújo)

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quinta-feira, 17 de setembro de 2009

K

o beijo

Beijou-me cálida,
a Morte;
ensaiou seus passos
(doble),
entre sussurros de vento
e brisas acres
enfeitou meus lábios;
gemi a vida
que me susteve
entre dois pontos,
em arco de círcunferência,
numa abissal dissensão;
em jeito de mim
apontei-me algures
entre o Médio Império
e o Palácio do Filho do Sol;
almirantei-me na fuga desoladora,
plácida entre dois pilares;
não cheguei a chegar:
osculado estava,
meus caminhos
já estavam possuídos...
(imagem retirada de http://www.abcgallery.com/: "O beijo" de Picasso)

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terça-feira, 15 de setembro de 2009

K







Miro el calido reflejo de mi vida
tras cantarte canciones amargas
de ayer.
(anónimo, séc. XXI, encontrado
em ficheiros já esquecidos)
(imagem retirada da net)
K

poesia

Dou-te os passos da maresia, encontras os caminhos de agora
em algas circunscritas na direcção do teu olhar;
as águas sorriem aos teus trejeitos
de potra;
a Lua não te traz alentos
ou desesperos;
são brisas que resfolegam
peito acima
brotando pelos teus olhos
marejados de espanto;
já eras esposa, mãe,
amiga
abrigo, cabana,
lar,
tornas-te agora também
poesia.

(imagem retirada da net)

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domingo, 13 de setembro de 2009

K

inquietude

Caminhava na avenida
do esquecimento
prévio;
as canções haviam sido cantadas
pela exaustão da maresia.
Já não lembrava os solfejos,
os bemóis,
já não restava
um só(l) dó,
uma narrativa
impressa nas janelas
da inquietude
nas noites em claro
daquele secreto Inverno.
(imagem retirada da net)

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sábado, 12 de setembro de 2009

K

Sou de uma cidade

Sou de uma cidade plena,
e aberta à luz espraiada
que a beija, sorri e acena
e a encontra sempre estremunhada.

Sou de uma cidade à janela,
velha bisbilhoteira enrugada
que, sentando-se, se sente nela
abrindo-lhe os braços de madrugada.

Sou de uma cidade do sol
que a desperta sorrindo
e a quem se dá lento e mole.

Sou desta cidade que soa
a Ulisses e ao Pégaso que voa
que exclama sempre "Bem-vindo!",
sou desta cidade e chamo-lhe Lisboa!

(imagem retirada da net)
(em 29/08/1997 às 3H00)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

K
Os seus passos eram mudos
porque a sua alma se libertara,
[em silêncio]
(imagem retirada da net)

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K

urzes

Entro pelos caminhos da noite,
os uivos, os gritos, as vagas
não me ofendem;
escorre-me a solidão
por entre os dedos vadios,
os tornozelos vacilam
entre as urzes
empurradas por brisas
desconhecidas, medonhas.
O meu retiro é uma caverna
tão esquecida quanto eu,
onde se engalfinham pensamentos
de outrora,
tão altivos, tão soezes.
Já não sei o regresso,
ele também não me sabe.
Estes pedaços de terra,
amanhados pelo tempo,
recrutados pela aurora,
deslizam sussurantes
desvanecendo os clarões
dóceis,
da pura antemanhã.
(imagem retirada da net)

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quarta-feira, 9 de setembro de 2009

K

(...)

O cão lambe as feridas?
Ou é já a morte, por via da chaga,
que beija o cachorro na boca?
(Mia Couto in "O último Voo do Flamingo")

As minhas mãos estendem-se, reverentes,
às mãos da morte,
meus lábios, já escuros,
abeiram-se do seu beijo.
(...)
Talvez seja o início duma ligação estável...


















(imagem retirada da net, gravura de 
Albrecht Dührer "O cavaleiro e a morte")

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terça-feira, 8 de setembro de 2009

K

a partir de...










(imagem retirada da net: nascer do Sol no Tejo,
autoria Rosário Soares)

tocar a noite

e o seu silêncio sacro

cognitivo dos instantes.

ser pérola

em mãos relâmpago

a florir os tumescidos seios da madrugada.

atingir o imponderável momento de ser luz.

(original de marés publicado no seu blogue marés de espanto)



Estico os dedos

e toco a noite;

ao longe, drapejam as velas

da luz que se escapa

pelos seios da madrugada;

já não há silêncio,

apenas nós

e as pérolas

da improvável,

singular alvorada.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

K

Caronte

Devia de ter deixado as mãos
cumprirem o seu destino:
uma e outra falando,
dizendo à morte
o nada da sua vinda.
Subi, pois,
ao poço da viagem,
entre dois mastros vazios,
dois remos sucumbindo;
zarpámos:
Caronte a esmo
sorria em vago tango
de aluguer,
a Lua fugira de soslaio,
o vento sereno e negro,
mergulhei, suave, a mão
nas águas apagadas,
no trecho de um fado
vadio
em voz de desalento
fugaz
(...)
(querem débil, o meu clamor...)














(imagem retirada da net)

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quinta-feira, 3 de setembro de 2009

K

ode

Pouco importa se teus caminhos se desviam,
em todo o tempo, dos meus;
pouco importa se queres iludir-te nas madrugadas
que são os meus ocasos,
pouco importa se crias os teus atalhos, firme,
sentindo o calor da sacrossanta vertigem;
abriga teus olhos da dor,
estica-te até o vento te calar
e que te não emudeça mais;
sorri,
sorri sempre
e deixa os cântaros da igualdade
jorrarem o seu deleite sobre a tua fronte;
terás então rasgadas ante ti
as avenidas perenes da liberdade!...

(imagem retirada da net)

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K

(...)

caminhei pelo colo da noite
ajeitando o laço da vida oculta,
só encontrei cristais informes
de dias cunhados pelo destino
(imagem retirada da net)

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quarta-feira, 2 de setembro de 2009

K

excertos

Eu rio-me,
sorrio
dos velhos poetas,
eu adoro toda
a poesia escrita,
todo o orvalho,
lua, diamante, gota
de prata submergida
(...)

(Pablo Neruda, excerto de "O homem invisível")

... a poesia escrita leva-me ao eterno,
ao obscuro passado, presente de hoje,
aos risos cantados ao orvalho,
apáticos entre as luas da madrugada;
para onde caminhas, velho poeta,
que levas contigo o princípio da sabedoria?
A esmo palpitam tuas folhas rabiscadas;
e eu, manietado, escrevo com os olhos
nas estrelas fixas, algoritmos rasos de inocência...

(imagem retirada da net, "O descanso do poeta" de Marc Chagall)

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terça-feira, 1 de setembro de 2009

K

sem vírgulas

vertiginoso vibrava teu cabelo
cascateando p'la tua vista já cega
para onde foi teu ar arisco e belo
agora que o teu colo todo se nega?

(imagem retirada da net)

"[...] Apesar de tudo o que se passa à nossa volta, sou optimista até ao fim. Não digo como Kant que o Bem sairá vitorioso no outro mundo. O Bem é uma vitória que se alcança todos os dias. Até pode ser que o Mal seja mais fraco do que imaginamos. À nossa frente está uma prova indelével: se a vitória não estivesse sempre do lado do Bem, como é que hordas de massas humanas teriam enfrentado monstros e insectos, desastres naturais, medo e egoísmo, para crescerem e se multiplicarem? Não teriam sido capazes de formar nações, de se excederem em criatividade e invenção, de conquistar o espaço e de declarar os direitos humanos. A verdade é que o Mal é muito mais barulhento e tumultuoso, e que o homem se lembra mais da dor do que do prazer."

Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico. Leia, assine e divulgue! Sopro Divino

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