terça-feira, 28 de abril de 2009

K

Lucky Luciano


Sou o Luciano.
Habito entre os ventres dos anoiteceres.
Subo à pendura duma fita chamada luzerna.
Não há silêncio duradouro,
a minha imagem esfacela-se entre dois pombos,
dois carros, dois passos entrecruzados.
Ilumina-se a manhã,
adormeço de ventre.
O meu dia entardece,
no começo da noite.
Aí, movo-me como nunca.
Cobertor arrumado, escondido,
lavo-me na velha fonte
(a velhinha cede-me sabão...)
e parto no caminho do devir,
arrepanhando os cêntimos
que me levam à padaria.
Sorrio à calçada,
meu colchão, meu piso,
ouço meu nome:
"Luciano! Luciano!"
e caminho digno,
quase snobe,
entre as travancas da vida,
entre os soslaios da luz enfunilada...
(imagem queimada de tanto ser vista)
NA (obrigatória) - É fácil escrever sobre aqueles de quem temos "pena", assim sentado na minha sala amena, enquanto o vento se alarga lá por fora.
É fácil ter bons sentimentos, olhar os sem-abrigo com um incontido sentimento de impotência.
Dão sempre boa(?) prosa, apelar a um não sei quê que, penso, é de todos nós.
Mas acima de tudo, o que tenho para dar é o meu sentimento de solidariedade (e algo mais) para com aqueles que trabalham para esse gente e que ajudam os que, de facto, querem ser ajudados.
K

Um Infante, um Príncipe, um Oceano


A face dura,

plena de si.

O mirante:

a nascente.

A mão rígida,

na outra,

o compasso.

Perfila o mar,
ondas presas

às velas que cria.

Madeirames

arrastados,

à força dum povo

crente.

Os olhos,

escuros

como o mar

sonante.

A cabeça,

os sonhos,
uma visão,

arar as vagas,

matar o medo,

"dilatar um Império",

com a Fé de um Homem!

(imagem retirada da net)


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sábado, 25 de abril de 2009

K




Sublinho, entre as forças,

a parede que de ti me afasta.

Uma parede escorrente,

tinta que a desvanece,

não a leva.

Vou-me,

entre três ou quatro cravos,

já esquecidos,

por entre gravatas e sorrisos adiposos.

A parede fincada mira-me,

vê-me com o garbo dos fracos e dementes,

dos que esqueceram o fortuito rodapé,

em maneirismos de sanidade.

A parede sem gritos, sem vitórias,

no mar dos limos já largados,

escureceu os olhos,

já húmidos,

ao meu desdém,

em perspectiva longínqua.



C'est magnifique l'Avril au Portugal...
(imagem retirada da net)

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quarta-feira, 22 de abril de 2009

K

quando pousaste a tua mão macia


nestas letras trémulas,


esse teu gesto, mais do que prometido,


era ausência.


As letras,em giroscópico lance,


fundiam-se pela madrugada,


obscura, ressonante,


triste na sua geografia.


Caminhava, ia,


soprando as páginas,


que houveras tocado,


delicada em ardor grácil,


mavioso.


A madrugada,vazia, destituída, entre brumas,


já te não toleravaa decifração...




(15 de Abril de 2009 16:41 em moriana2 inspirado em Fernando Guimarães)
K

Variações sobre um tema bailarino


Bailarina de papel,

volteias fincada

num velho burel,

em risos de fada.


Rodeias, giras, sobes.

Quem irá cinzelar,

em cisco d’ouro, cobre,

vórtice assim lunar?

Num hirto espaço,

tinta as tuas mãos

de grácil harmonia.

Louca, ágil, rodopia!
Corpos livres, sãos;

em subtil, lírico passo...



(imagem retirada da net)

terça-feira, 21 de abril de 2009

K

Escritos da Casa VII





Açambarquei o barco,

os remos, o leme;

queria escorregar numa sirga...


Água,

limos,

fogo,

cárcere,


Ar!!


pó,

terra (...)
(imagem retirada da net)

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segunda-feira, 20 de abril de 2009

K

Escritos da Casa VI

Um caminho mal atalhado no meio de roços, flores espinhentas. O atalho estava numa bússola louca, num caminho tão bem desenhado, um esmero em cada traço micrométrico.
Rastejar, sentir o roço das gravilhas, calçadas, ramos; sem ver o fim do princípio, o fim de nada, átomo, sequer de uma esguia fumarola de medo.
Cotovelos, joelhos, botas esmagavam-se sortidas num corpo que já seria um resto de absurdo insecto. Havia apenas a postura mental que lhe forçava a espinha, numa tala vertical roçando deuses feéricos, não habitando ainda as entranhas dos humanos.
Sim, o caminho. Não esperava uma mão, sequer, dos seus deuses. Aconchegava-se na sua adoração, no amor de cada homem. Egoístas. Talvez a resposta venha dos ressentimentos.
Mas agora, o caminho. Não ficaria ali, na casula, de restos de bosques que ia vestindo.
O sol de Inverno foi cobrindo um sorriso, uma posição abençoante. Dar e receber do seu peito fora, enfim, a sua rota, ponto de partida.
K

Escritos da Casa V

Afundou-me a água,
soprou-me lenta.


(...)


Quando verei

uma cratera líquida,

em mar de sopros designantes?

Uma fuga

de cores matizadas

(em Sibelius...)
K

Escritos da Casa IV







Junto à cabeceira,

um livro,

deslavado em teias de nada.

O vazio já era esteira,

em volta o nada.


(...)


Gostaria de ser

nave-navio,

de loucas atracções,

em caminho levante,

em jeito de fura

das teias de nada...
(imagem retirada da net)
K

Escritos da Casa III

Veio-me o sorriso,
já nada no jardim
suspenso na cercania.
apenas o sorriso,
em jeito de vitória,
sem vazio,
em nós,
já lisas as cordas;
fios que já não eram comigo.
Sorri, entre lágrimas baloiçantes...
K

Escritos da Casa II


Quero que a cabeleira do Tempo
cubra as faces do Inverno;
que os ramos se curvem,
ante as horas
compassadas
de cadência eterna.
Quero moer as marés,
raspar os fundos
das lúcidas conchas,
das madrepérolas suspensas,
cercando naus esquecidas
em rotas vagas,
vagas soltas
mirando o nascente.
(imagem retirada da net)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

K

em si menor...

Partiu.

Largou a cítara,
a harpa,
o falsete até,
As mãos, ambas,
os dedos dedicados,
o allegro,
tudo se ia em crepúsculo.
Os seus passos cadenciavam
o longínquo.
Lentamente, afogava-se O som.
Uma manta de retalhos,
um quinteto de cordas,
cobriam vagarosamente,
a ara sacratíssima.
Soprava o som,

aquele som

em si cada vez menor.

O nada.

Menos...


(imagem retirada da net)


domingo, 12 de abril de 2009

K

soneto

Bailarina de papel,

volteias fincada

num velho burel,

em risos de nada.



Rodeias, giras, sobes.

Quem irá cinzelar,

em cisco ouro, cobre,

vórtice assim lunar?



Num hirto espaço,

tinta as tuas mãos

de grácil harmonia.


Louca, ágil, rodopia!

Corpos mortos, vãos;

sinistro, fatal passo...


(extraído do blogue em que participo GPS)


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quinta-feira, 9 de abril de 2009

K

missiva... missão

Cara amiga:

Desfrutei da sua ausência.
As horas foram-se,
quase espiadas.
Fiquei quieto,
saboreando o sossegado silêncio,
sorrindo simples ao sol.
Entreabri a alma,
o coração,
partilhei vitórias,
passadas.
Amiga,
o seu partir
levou-me o vitupério,
o amargor,
a fétida bílis.
Amiga,
o chamar-lhe "amiga"
não será estranho,
paradoxo,
perfídia sarcástica?
Não:
partilhamos
o abrir das ondas,
o renascer das tílias,
o apontar da trajectória
duma qualquer lua,
da harmonia mundi.
Entre os abismos,
unimos o que nos afasta.
Isso basta.

Seu,
Jaime

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domingo, 5 de abril de 2009

K

Carrocel

Escorregou,
desceu vida acima,

de pináculo em sombra,

esgueirando-se em caminhos de volteio.

Reviu os malmequeres,

os goivos,

aromas antigos,

efervescentes,

planos sem sobressalto.
Torceu-se,
engalfinhou-se,

mergulhou nas fronhas

de um passado sangrento,

antes do cume rompante,

acutilado,

num cristal de azul baço;

aprisionando

a dor sem esperança.

As sombras,

as luzes,

as duas irmãs,

num saco de Pandora....
(imagem retirada da net)

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"[...] Apesar de tudo o que se passa à nossa volta, sou optimista até ao fim. Não digo como Kant que o Bem sairá vitorioso no outro mundo. O Bem é uma vitória que se alcança todos os dias. Até pode ser que o Mal seja mais fraco do que imaginamos. À nossa frente está uma prova indelével: se a vitória não estivesse sempre do lado do Bem, como é que hordas de massas humanas teriam enfrentado monstros e insectos, desastres naturais, medo e egoísmo, para crescerem e se multiplicarem? Não teriam sido capazes de formar nações, de se excederem em criatividade e invenção, de conquistar o espaço e de declarar os direitos humanos. A verdade é que o Mal é muito mais barulhento e tumultuoso, e que o homem se lembra mais da dor do que do prazer."

Iniciativa Legislativa de Cidadãos contra o Acordo Ortográfico. Leia, assine e divulgue! Sopro Divino

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