queda XXII
Quantos eus sou eu?
Olho-me,
olhos escorrendo,
deslizando,
o meu umbigo
fixado no hoje.
Não busco muito,
o que sou serei eu;
o ontem mastigou
o meu olhar,
os meus olhos debruçaram-se
e o esquecimento voltou;
talvez,
de tanto focar-me,
se desfizesse o íngreme
gesto,
o riso demente, insano,
jogado alto
no delírio do tempo!
Ah!
Mãos vazias,
berço luzente da madrugada,
ergam-se, fechem-se,
segurem bem alto o cabresto,
impeçam
a fuga desalvorada,
o tomar do freio nos dentes!
(fonte da imagem:
Etiquetas: fugas, o arame dos corcéis
vox
A tua voz
solta-se,
vibra,
estonteia,
estremece,
ressoa;
trepa, ágil,
já te não pertence,
e as minhas mãos
agarram-na,
aninham-na,
afagam-na,
tocam-na
em gestos
reverentes
próprios de amanhecer.
(fonte da imagem:
http://sol.sapo.pt/inicio/Cultura/)Etiquetas: pas-de-deux
queda XXI
(...)
esquecer-me do que
o horizonte não contém:
eis o meu esplendor
Ricardo Gil
Soeiro
in espera vigilante
(...)
esse rodeio
é o meu fausto
já;
longe dos meus olhos
volteiam ritos,
esgares de outros
limites não contidos;
já pensei em esquecer
todos os jardins,
todas as alamedas escusas:
mas onde irão rebolar-se
os meus olhos,
vida e morte da personagem?
Onde irá repousar
o fito que me obceca,
a mira do frenesim?
O horizonte já nem me contém,
o regresso é o esplendor
do silêncio,
olhos esquecidos,
na tranquila antemanhã,
junção da aurora
e do crepúsculo...
(...)
(fonte da imagem:
Etiquetas: escrever a vida, jardins
queda XX
os meus pulsos emergem da sombra,
os líquenes cobrem o meu ontem,
na calçadas escurecidas pela luz;
há uma réstea, um quase farrapo,
de compassos marcados por dois violinos,
ripas enegrecidas num ré maior.
 |
Não me basta a vida:
já vejo a claridade, a aurora cintilante
como um véu de clara espuma
em carícias dançadas,
bafejando um vago Ocidente. |
(foto do autor
obtida com telemóvel:
"Ocaso em S. Martinho do Porto,
2010")
Etiquetas: caminhos do vento, espaço
em azul...
Hoje, sento-me no colo do Tempo.
As minhas mãos enroscam-se nas farripas
das suas horas,
encosto-me ao seu peito
tiquetaqueante nos segundos;
deslizo
e, nessa tranquilidade cadenciada, espraio-me pelos azuis
que o lacrimejam
pela sua beleza abaixo.
No colo do Tempo
vislumbro-me no futuro e,
no arrepio,
sinto os passos de algo
que me esperaria, mas que me encontrou saciado.
Então, num jacto imenso,
empurro os segundos,
suspenso,
até a Paz, a verdadeira Paz,
me imergir
num mergulho leitoso, tépido.
(fonte da 1ª imagem:
http://portaldegaia.wordpress.com/)
(2ª imagem:
foto do autor obtida com telemóvel:
"Jardim de silicatos")Etiquetas: acolhedor
"[...] Apesar de tudo o que se passa à nossa volta, sou optimista até ao fim. Não digo como Kant que o Bem sairá vitorioso no outro mundo. O Bem é uma vitória que se alcança todos os dias. Até pode ser que o Mal seja mais fraco do que imaginamos. À nossa frente está uma prova indelével: se a vitória não estivesse sempre do lado do Bem, como é que hordas de massas humanas teriam enfrentado monstros e insectos, desastres naturais, medo e egoísmo, para crescerem e se multiplicarem? Não teriam sido capazes de formar nações, de se excederem em criatividade e invenção, de conquistar o espaço e de declarar os direitos humanos. A verdade é que o Mal é muito mais barulhento e tumultuoso, e que o homem se lembra mais da dor do que do prazer."
Naguib Mahfouz, romancista egípcio, na mensagem que enviou, em 1988, à Academia Real Sueca a agradecer o Prémio Nobel da Literatura, o único a ser atribuído até à data, a um escritor árabe
(cit. em "Dicionário do Islão", Margarida Lopes, ed. Notícias)