Terça-feira, 13 de Março de 2012

queda XXII

Quantos eus sou eu?
Olho-me,
olhos escorrendo,
deslizando,
o meu umbigo 
fixado no hoje.
Não busco muito,
o que sou serei eu;
o ontem mastigou
o meu olhar,
os meus olhos debruçaram-se
e o esquecimento voltou;
talvez,
de tanto focar-me,
se desfizesse o íngreme
gesto,
o riso demente, insano,
jogado alto
no delírio do tempo!
Ah! 
Mãos vazias,
berço luzente da madrugada,
ergam-se, fechem-se,
segurem bem alto o cabresto,
impeçam 
a fuga desalvorada,
o tomar do freio nos dentes!


(fonte da imagem:

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Sábado, 10 de Março de 2012

vox

A tua voz 
solta-se,
vibra,
estonteia,
estremece,
ressoa;
trepa, ágil,
já te não pertence,
e as minhas mãos
agarram-na,
aninham-na,
afagam-na,
tocam-na
em gestos
reverentes
próprios de amanhecer.
(fonte da imagem:
http://sol.sapo.pt/inicio/Cultura/)

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Terça-feira, 6 de Março de 2012

queda XXI


(...)
esquecer-me do que
o horizonte não contém:
eis o meu esplendor

Ricardo Gil Soeiro
in espera vigilante
publicada por moriana às 11:46 a 30/Jan/2012
 (...)
esse rodeio
é o meu fausto
já;
longe dos meus olhos
volteiam ritos,
esgares de outros
limites não contidos;
já pensei em esquecer
todos os jardins,
todas as alamedas escusas:
mas onde irão rebolar-se
os meus olhos,
vida e morte da personagem?

Onde irá repousar
o fito que me obceca,
a mira do frenesim?
O horizonte já nem me contém,
o regresso é o esplendor
do silêncio,
olhos esquecidos,
na tranquila antemanhã,
junção da aurora
e do crepúsculo...
(...)

(fonte da imagem:

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Sábado, 3 de Março de 2012

queda XX

A vida não me basta,
já não me chega,
os meus pulsos emergem da sombra,
os líquenes cobrem o meu ontem,
o hoje rasteja submisso.
Não me chega a vida:
os meus passos ressoam
na calçadas escurecidas pela luz;
há uma réstea, um quase farrapo,
de compassos marcados por dois violinos,
ripas enegrecidas num ré maior.
Não me basta a vida:
já vejo a claridade,
a aurora cintilante

como um véu de clara espuma
em carícias dançadas,
bafejando um vago Ocidente.

(foto do autor
obtida com telemóvel:
"Ocaso em S. Martinho do Porto,
2010")

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Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

em azul...

Hoje, sento-me no colo do Tempo.
As minhas mãos enroscam-se nas farripas
das suas horas,
encosto-me ao seu peito
tiquetaqueante nos segundos;
deslizo 
e, nessa tranquilidade cadenciada, espraio-me pelos azuis 
que o lacrimejam 
pela sua beleza abaixo.
No colo do Tempo
vislumbro-me no futuro e,
no arrepio,
sinto os passos de algo
que me esperaria, mas que me encontrou saciado.


Então, num jacto imenso,
empurro os segundos, 
suspenso,
até a Paz, a verdadeira Paz, 
me imergir 
num mergulho leitoso, tépido.
(fonte da 1ª imagem:
http://portaldegaia.wordpress.com/)
(2ª imagem:
foto do autor obtida com telemóvel:
"Jardim de silicatos")

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"[...] Apesar de tudo o que se passa à nossa volta, sou optimista até ao fim. Não digo como Kant que o Bem sairá vitorioso no outro mundo. O Bem é uma vitória que se alcança todos os dias. Até pode ser que o Mal seja mais fraco do que imaginamos. À nossa frente está uma prova indelével: se a vitória não estivesse sempre do lado do Bem, como é que hordas de massas humanas teriam enfrentado monstros e insectos, desastres naturais, medo e egoísmo, para crescerem e se multiplicarem? Não teriam sido capazes de formar nações, de se excederem em criatividade e invenção, de conquistar o espaço e de declarar os direitos humanos. A verdade é que o Mal é muito mais barulhento e tumultuoso, e que o homem se lembra mais da dor do que do prazer."

Sopro Divino