Quarta-feira, Julho 08, 2009

caminhos

Sobra o caminho,
entre dois passos, restou o dia
[sóbrio].
Pingavam atalhos entre a folhagem,
um verde aspergia os meus passos,
o pó jazia liquefeito
pelas lágrimas de um deus
passeando na madrugada.

(...)

Por onde andaria o meu Alentejo,
tresmalhado pelos seus montes,
pelos seus trigais?

(imagem retirada da net)

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Segunda-feira, Julho 06, 2009

miradas


Nada. Sólo el cuchillo de Muraña.
Sólo en la tarde gris la historia trunca.
No sé por qué en las tardes me acompaña
El asesino que no he visto nunca.
(Jorge Luís Borges in Antología poética, 1923-1977)

O braço armado
da chacina,
segue-me
marcando os meus caminhos,
esquivos,
sombrios,
toldando-me os sentidos.
A tarde cinzenta
leva as marcas de água,
até pingarem de nostalgia,
de saudades.
Há passos que resvalam
na esguia lousa.
E nem a sesta de Muraña
rompe um braço armado
que nunca vi
e que fende a história
que me afasta.
(imagem retirada da net)

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Domingo, Julho 05, 2009

(...aspereza)

Era o obscuro dia,
parindo a fosca noite;
devassas crónicas
duma luz fugidia,
anoitecendo-se
nas frugais marés

de um Verão acre.


(imagem retirada da net)

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Sexta-feira, Julho 03, 2009

...cruzando-se

Os caminhos cruzam-se
memória dentro.
Escolhas turvas
em dias chuvosos.
Vazam as gotas ambíguas
de um ontem esquecido,
entre duas talhadas de amanhã.
Meu peito já nada carrega,
a não ser tatuagens fendidas
pelo ar da melancolia,
pela certeza da obscuridade.


(imagem retirada da net)




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Quinta-feira, Julho 02, 2009

ancient dreaming




An old pain
climbs up the sounds
of the city beneath.
I pass
through the ace of spades,
carrying the pain on my back;
people stare at my eyes,
my footsteps keep following me.
I pass
through the gates,
I try to conceal my smoking dreams
into the valley of my wits.
I pass
once again,
my footpath walks beside me;
as I look back
desperate soldiers try to cover
their luminescent horror.
(imagem retirada da net)

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sonhos partidos

Inundou-me o sonho,
esta noite.
deslizou por meus lábios,
assaltou o meu esquecimento.
As tílias assombravam as avenidas,
loucas flores tintavam-se
trepando os muros,
os portões.
Cavalgava o sonho,
ainda levando o torpor,
a atracção do amargo,
saboreava minha boca.
O gosto olvidava
as sombras da antemanhã.

(imagem: detalhe de uma pintura de Monet retirada da net)

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Domingo, Junho 28, 2009

margens


o corpo está,

Alinhar ao centroa alma voa,

sem rumo,

sem destino, chegada

ou regresso.

O curso dos rios

traz a imagem rude,

disforme,

do corpo em anelos

sinuosos.

Brilha o horizonte tranquilo,

voa, em desvios sonoros,

a alma incerta,

quase discreta.

O corpo queda-se

no rol longo

de uma saída intramuros.


(inspirado no excerto do poema de Wislawa Szymborska "Gente na Ponte", publicado em moriana)

(imagem retirada da net)

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Quinta-feira, Junho 25, 2009

procissão







Calcorreavam os caminhos;
vinham dos moinhos altos,
detrás dos velhos choupos,
das urzes, de arbustos,
das acelgas miúdas.
Havia um pranto no ar,
duas exclamações
potentes entre si.
Pó nos caminhos,
estradas vivas, entre jardins.
Ao longe, o foguetório,
as bandas, a música.
Mas eles corriam atrás
doutros marcos, de vida nova.
Não a viam, não a tinham;
e os seus passos longos,
ignaros de festas, de folias,
retinham trajectos
sem bússola, sem rumo;
sem esperança, também.
(imagem retirada da net, pormenor do quadro de Dalí "A carcaça de um burro")

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Domingo, Junho 21, 2009

21/6









Hoje é Verão.

Chegou de manhãzinha,

pedindo licença,

algo rarefeito.

Trazia um sorriso,

uma mão cheia de oiro,

a outra de vagar.

Pintalgou-nos

de cores esquecidas

em trovão de alma.

(imagem retirada da net)

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Sexta-feira, Junho 19, 2009

sombra

Na porta,
a tramela
seca, descascada, parda,
enferrujada pelo pó de Outono.
Atento num vidro
toldado,
fosco,
(partido algures);
há nele um resto de poesia,
um resto de alguém.
Num prado castanho,
solta-se um corvo;
já não voa:
as asas
soltas
de breu, flores, suor.



Estalidos na sombra,
um sonho que voltou,
acre.
Há três pontas soltas
que levam as minhas lembranças,
tranquilas talvez.
Pela janela lascada,
o vidro já nem esconde
um palco pútrido
em ossadas esquecidas.

(publicado em 21 de Janeiro de 2009 15:33 e inspirado num poema de Ana Matias)
(imagem retirada da net)

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back to nothing


He did not speak,
he sat there
smoking
standing aside
almost forgotten
behind the smoke rings.
I was in front of him
(he pierced me with his look).
I did not sigh.
I waited
as the rain came.
He said nothing
though.
I found my ashes,
my unexpected dreams.
We both left,
no word,
no glare,
no nothing...
The skies produced a raven
while pouring
water drops
out of nowhere...


(inspirado no execerto dum poema de Jacques Prevert in moriana)

(imagem retirada de celticjeweler.com)

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Quarta-feira, Junho 17, 2009








Eu queria sentar-me no poente,
entre dois raios de Sol
intersectando-se
num arco em ogiva perfeita.
Queria saber do fim do arco-íris,
gelá-lo num anel tão polido
que reflectisse o tempo dourado
e me levasse entre dois segundos
infinitos,
como o clarão do luar.
Quando poderei ir,
os pés encharcados de eterna poeira luzente
em intermezzos de elegante claridade?



(imagem retirada da net)

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Domingo, Junho 14, 2009

antes que seja tarde...















Antes que seja tarde

quero passear descalço,

olhar os pássaros esmaltados,

as árvores em brios de ouro.

Antes que seja tarde

quero olhar a Lua

tirar a esquadria às estrelas,

sentar-me no pico da noite.

Antes que seja tarde

quero molhar as mãos

nas praias da Normandia,

vibrar nos ecos da Liberdade.

Antes que seja tarde

quero sentar-me, qual criança,

no fosso de uma orquestra

e planar ao jeito de Mozart.

Antes que seja tarde

quero entrar no átomo

e brincar com os electrões

como em aulas que não dei.

Antes que seja tarde

quero olhar o fio de longe,

as águas marejadas,

os dias que me são tardios...
(imagem retirada da net, pormenor de "A persistência da memória" de Salvador Dali")

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Sexta-feira, Junho 12, 2009

Exercícios



Afasto a rede já afastada,

entretenho o ângulo já entretido,


caminho em esquivo caminhar.


Sinto o os restos dos sentires


e lentamente fixo a lentidão;


ocasionalmente miro o ocaso


e giro em fluente girassol.


Restos de fluidas marés restam


em longilíneas espumas longas.





E o ar de escrita em exercício


escorre pela mesa ofegante.


(imagem retirada da net)

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Quinta-feira, Junho 11, 2009

... preguiçando...

(...) a preguiça trepa dolente

entre dois raios de sol;

espraia-se por nós

como a brisa de verão;

é um torpor:

aquece o mar;

estende-nos nas certezas;

faz nossas as férias, sorrindo;

entra-nos porta dentro

sem avisar;

muda tudo

e sorri,

sorriso inocente

sem visto de chegada



(...)

a preguiça é um jogo de sombras;

uma nuvem clara,

um sorriso sem causa;

e não se explica,

porque não!



(inspirado em moriana)

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voos


Ave movediça,

em voo audível,

sobe, sobe

pelo infinito dos desejos.

Entre arbustos

de sombra e memória,

fixa a ausência

vira os segredos

e regressa ao voo

(para o passado imperfeito).

Abrem-se as asas e volteia

nas recordações

quase imberbes,

tremeluzentes.

Ouve o presente,

regressa,

e as brisas sopram

entre as folhagens...

memórias de voos

em ecos de longe...


(inspirado num poema de Tiago Patrício em moriana)

(imagem retirada da net)


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Terça-feira, Junho 09, 2009

(...) secreto...

(...) quero pousar,
em fio de arco,

rasar a terra,

baixar em clemente campo de flores.

Há um lugar imenso,

secreto,

tal jardim de Allah.

Recolho-me na sua entrada insuspeita.

Entre frondosas incógnitas,

entre arbustos alvos,

passo sorrindo;

estou só, pois.

Há um poente entre os roseirais,

enfronho-me em mim,

qual bicho em demanda de si.

Esquecidas as ruelas

abrem-me os braços;

fico na entreaberta posse de mim.

Passo por mim próprio,

miro o Sol rendilhado,

parca nesga do seu lumiar.

Em adolescentes bocejos

perco-me na preguiça do silêncio.

Nada se ouve,

nem cascatas de tritões,

nem chilreios doces;

apenas eu,

abraçando este meu jardim secreto,

este eu que se volatiliza em meigos mimos...

(imagem retirada da net)

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um príncipe













Vem conduzir as naus,

as caravelas,

Outra vez, pela noite,

na ardentia,

Avivada das quilhas.

Dir-se-ia

Irmos arando em um montão de estrelas.
(Camilo Pessanha in Clépsidra)



Nos caminhos em que suavam as velas,
em azuis desertos, quási sólidos,
vinham e iam volteios de cigarras,
em bamboleantes cercos de miragem.
Anil fundido, estrelas sempre,
azul alternando-se
ante rostos cavados pela maresia.
Ao fundo,
entre dois pontos,
um sonho,
dum Príncipe
com um só anelo:
arar as águas,
cultivar a liberdade!

(poema publicado no blogue http://www.gps-poetasdomundo.blogspot.com/ em que participo)

(imagem retirada da net)

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Sexta-feira, Junho 05, 2009

a vigília


A fronte pétrea perscrutava
um horizonte calvo,
desolado.
Manteve o silêncio,
entre pétalas de mar,
fogos de poeiras
entre troantes estampidos.
Soltavam-se baforadas
cíclicas, in tempo maggiore.
Jogavam-se arcos de bandeiras,
corriam crianças à solta,
em passada quase lunar
em fugazes sustenidos.
Inclinou-se,
a busca,
já quase uma intercessão.
O cieiro tomava conta
das rugas gastas,
em cada ponto.


Sobranceiras ao quadro,
duas semi colunatas de Bernini
fechavam o círculo,
em faustosa glória.


(imagem retirada da net)



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Domingo, Maio 31, 2009

Hoje

Quero soprar para longe
a minha fome de amanhã.
Quero espreitar por cima
dos ombros do hoje.
Quero não ser mais escravo
do dia incerto.
Alongo o tempo,
fixo o calendário
,
(o relógio);
contemplo o hoje
fluindo
pelas minhas margens,
espreguiçando-se
entre dois ramos
de memória.
Espraia-se ainda mais,
e eu vou ficando dolente,
estendido,
mirando o hoje,
assim, sem mais
ou menos…


(foto retirada da net)

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Quarta-feira, Maio 27, 2009

tiptoeing


I'll tiptoe
whenever my feelings
tiptoe me to go.
I'll knee and pick up
a flower of tiptoed colours.
The tulips will break,
and their redish colours
shall tiptoe upstream.
The garden,
the moonlight,
will flourish,
whenever I tiptoe
chasing you
through the bushes
of mystery,
of wonder.

(inspirado num poema de Al Dubin/Joe Burke em moriana2)
(imagem retirada da net)

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Terça-feira, Maio 26, 2009

palavras


Podemos silenciar todas as palavras

porque no nosso peito

elas estão vivas

(Paula Raposo em “As minha romãs”)

Podemos calar todas as armas,
silenciar revoltas,
mas as palavras
sempre ficarão no nosso peito.
Podemos despejar nosso olhar,
noutros olhos,
fechar o que sentimos,
mas as palavras,
essas,
ficarão no nosso peito.
Podemos até fugir,
mudar de terra, de afectos
de nome,
mas as palavras ficarão no nosso peito,
vivas.
Acordam-se os homens,
acorda-se o tempo,
acorda-se a vida,
porque há palavras
que em si trazem sementes de revolta, de mudança, de comunhão.

“No princípio era o Verbo…”

(imagem retirada da net)

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Segunda-feira, Maio 25, 2009

giz, graffiti


A flor abre-se,
uma menina escreve;
graffitis alegram os muros.
Partilho o meu medo,
contigo,
para que te possa olhar
em todos os limites.
Uma lata de spray
cai das mãos da menina,
a noite subtrai-a.
Um pássaro esvoaça
em círculos,
entre os vórtices
dos meus temores.
Reaparece a menina;
vem só.
A flor abrira-se
e dera-lhe o pau de giz;
ela apenas escrevera no velho muro:
"quero olhar em frente
sem receio do medo. Só."
(inspirado no excerto dum poema de Alejandra Pizarnik publicado por moriana)
(imagem retirada da net)

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...o lápis

Onde estará o meu lápis?
Aquele que me pensava,
me traçava as linhas.
Fora o tempo dos receios,
dos trilhos sem caminho.
As emoções bailavam,
entre o tudo e o nada.
Nada mais.
Ausência.
caminhei entre as tubas,
violinos, violetas, trompetes,
uma orquestra absorta
em si menor.
Onde estaria o meu lápis?
Aquele que delineara com Braque,
satirizara com Eça,
e me deixara esperançoso
de uma arte que me transluz.
Agora estou mirando o tecto,
o infinito pra lá da janela.
O lápis da minha esperança…

(imagem retirada da net)


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Atalhos


Caminho sob mim próprio,
há tenazes que me abrangem
subtil, docemente.
Entre as palmeiras
fugas de brisa,
de poeiras de cor fosca.
A terra afunda-me,
o mar ocre,
desvenda-se em laivos de vapor,
enquanto a vida se espelha.
Houve dor queimando as secas matrizes.
Balançou o pesar entre as silvas.
Os montes anexos,
os juncais,
trepavam-se e soldavam os cumes.
Fiquei estático.
sabia que a urze
cercaria os meus caminhos,
qual serpente bífida,
tricéfala.
Bastei-me,
Apenas o gosto da vida,
em paisagem morta, espúria.
(imagem retirada da net)

Terça-feira, Maio 19, 2009


Na passagem do uivo,

senti a brisa,

descarnada,

quase em fumo,

ou pó,

ou ambos.

Caminhei ainda,

dois cravos em justa liberdade;

papoilas,

memórias livres

(ainda).

Segui os passos da Via Crucis:

amarrações, cordames,

cercas vivas;

ao longe uma Caveira.

Caminhei,

a volta à passagem do uivo.

Tudo se sacudiu sobre mim:

somos livres, liberdade,

suor em sangue;

as flores esquecidas,

as palavras decaindo.

Encharcado em memória,

espreitei o amanhã,

arrepiado...

(imagem retirada da net)

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Segunda-feira, Maio 18, 2009

warm feelings


i sit and wait
as the rain does not come


i feel the warmth of a passage


always shaking,

gliding as my heart goes forth.
i sit and wait,

i find myself in a margin

in a greenish tower,

falling apart as my feelings do.

no blues,

no piano playing;

the violin arch still goes

like an arrow


aiming a far, far away soul,

beneath the border,

the limit, though,

going away

in a forgeftul manner.
(inspirado num poema de moriana2)
(imagem retirada da net)

Sábado, Maio 16, 2009

montagem a preto e branco

(Em plano médio)

A navalha,

restos de casa,

sem memórias,

nada.

Corte de vida,

"director's cut",

numa montagem

em jeito de poeiras,

um preto e branco desmaiado,

entre os dois retratos pendurados,

o cântaro (de)leitede vidas esconsas.

"Special effects",

a braseira, o lume;

onde páram os duplos, os "stuntmen"?

Aqui é a vida,

só uma "acção",

entre um suspiro

e um tique do relógio...

escorre o tempo?

Meus dedos percorrem

aquelas vidas,impávidos.

Não!

Não fora este o lugar do nascimento!
(Plano americano/grande plano com grua)
(a partir dum poema de moriana em moriana2)
(imagem retirada da net)

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Sexta-feira, Maio 15, 2009

Palavra

Entre dois quartos de lua,
rarefiz-me.

subi, montanha acima,

a palavra, a busca.

Entre dois sonhos,

refiz a busca,

não te marquei
ou sublinhei.

Entrei, em vão,

súbita presa do meu falar.

Ficou o muro por escrever,

muro que lamentei,

entre gritos vazios,

quase brancos de memória.

A busca é surda,

o manual fechado.

Passou o tempo das folhas maduras,

dos lápis nascentes.

Hoje, tudo se fechou,

e o silêncio reveste

as lombadas...
(imagem retirada da net)




Quinta-feira, Maio 14, 2009


Aqui estás:

força bruta,

milagre,

memória de físicos, matemáticos.

Tributo a Da Vinci, Galileu, Newton, Kepler.

Não sabes quanto vales,

apenas um destino fabricado.

Equações, fórmulas, papéis,

eis o que és:

brio,

5 sentidos do Homem

caminho, onde o seu braço não vai.
Não sabes quanto vales,
a tua força,
os olhos que te seguem,
os dedos, às vezes, cruzados
que te miram.
És tributo,
milagre,
folha de equações,

és o triunfo
(és a queda...)
(imagem retirada do site da NASA)





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Quarta-feira, Maio 13, 2009

Silêncio, caos


"... e é o silêncio que perdura

quando morremos em nós"

(inspirado num poema de Paula Raposo em "As minhas romãs")

um silêncio descaído;
uma voz que já não chama,
sentada num chão encerado
uma vida que teima
em viver.
Já não há brados,
clamores;
(voz que clama no deserto...);
apenas, só a luz de mofo
que entorta o vazio.
Vagos suspiros, queixumes,
uma morte que tarda,
persiste um caos,
mudo, silente,
uma voz que já nem condena,
zanga ou enfurece...
não há esperança ou caminho;
no chão encerado,
houve um clarão,
fugaz...
(imagem retirada da net)

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Segunda-feira, Maio 11, 2009

ouro-luz

(imagem retirada da net)

Endureci a crosta do solo;
salguei o rosto,
o sol empinado,
costas geladas
daquele sangue brutal;
entre as foices de trigo
(ouro faísca, ouro cego)
malham insectos;
vidas resvalam socalcos abaixo,
perdido o vinho,
o pão,
a semente.
Restam duas enxadas,
entre dois passos de horizonte,
resta um homem, uma mulher,
uma volta na eira,
uma ilha de raiva,

[inacabada]

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Domingo, Maio 10, 2009

gravura

Podias ficar com uma imagem;
a luz das palavras,
dos sons
trocam o signo.
Lugar onde,
de onde,
sujeito sem objecto.
A partida nem saiu do molhe,
a figura,
a imagem,
o retrato,
descansaram sobre o aparador,
escondidas em memórias
empoeiradas num amanhã insone.

(vd. fig. inclusa)

(retirado blogue em que participo www.gps-poetasdomundo.blogspot.com)

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Quinta-feira, Maio 07, 2009

A rua do quiosque












Sonhei uma álea,

quiosque de pastiches,

tinta-da-china,

linha quase dolorida.

Ao canto, numa frinja,

entre dois leões escapados do pó,

uma água-furtada espreita.

Para nada ou ninguém.

As quatro pessoas não passam;

sorriem ao nada,

ao infinitamente branco

dum enquadramento alegre,

entre gargalhadas espumosas.

Sempre sonhei assim a minha rua.

Qui-la assim,

assim ma deram.

Possuo-a

como o dedilhar,

amoroso, filigranado,

do mestre guitarrista,

na ternura envolvente do seu amor,

nos olhos que soerguem aquela álea,

a semiabrigam do sol,

lhe levam gotículas de água,

e suspiram de enlevo.

(retirado do blogue em que participo gps-poetasdomundo.blogspot.com)

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Domingo, Maio 03, 2009

meu cansaço


Açambarquei um olhar,

pendurei as estrelas,

sorri à coruja estremunhada.

Entre rosas, braçadas,

encantei o sorriso dum jardim,

quase tão florido,

como coroada estava a fronte

dum qualquer atleta,

em fuga do seu perfil,

da sua latitude.

Emergi,

entre velhas urzes,

graciosas sombras guiavam

um infidável tempo escalavrado,

já.

Sentei o cansaço,

entre um pas-de-deux

e uma roda.
Sorri.

Era o vento de trevas,

quási infinitas,

sublimes

inocentes.

A estátua insólita,

duas rosas,

dois pulsos

entrelaçados...


(imagem retirada da net)

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Terça-feira, Abril 28, 2009

Lucky Luciano


Sou o Luciano.
Habito entre os ventres dos anoiteceres.
Subo à pendura duma fita chamada luzerna.
Não há silêncio duradouro,
a minha imagem esfacela-se entre dois pombos,
dois carros, dois passos entrecruzados.
Ilumina-se a manhã,
adormeço de ventre.
O meu dia entardece,
no começo da noite.
Aí, movo-me como nunca.
Cobertor arrumado, escondido,
lavo-me na velha fonte
(a velhinha cede-me sabão...)
e parto no caminho do devir,
arrepanhando os cêntimos
que me levam à padaria.
Sorrio à calçada,
meu colchão, meu piso,
ouço meu nome:
"Luciano! Luciano!"
e caminho digno,
quase snobe,
entre as travancas da vida,
entre os soslaios da luz enfunilada...
(imagem queimada de tanto ser vista)
NA (obrigatória) - É fácil escrever sobre aqueles de quem temos "pena", assim sentado na minha sala amena, enquanto o vento se alarga lá por fora.
É fácil ter bons sentimentos, olhar os sem-abrigo com um incontido sentimento de impotência.
Dão sempre boa(?) prosa, apelar a um não sei quê que, penso, é de todos nós.
Mas acima de tudo, o que tenho para dar é o meu sentimento de solidariedade (e algo mais) para com aqueles que trabalham para esse gente e que ajudam os que, de facto, querem ser ajudados.

Um Infante, um Príncipe, um Oceano


A face dura,

plena de si.

O mirante:

a nascente.

A mão rígida,

na outra,

o compasso.

Perfila o mar,
ondas presas

às velas que cria.

Madeirames

arrastados,

à força dum povo

crente.

Os olhos,

escuros

como o mar

sonante.

A cabeça,

os sonhos,
uma visão,

arar as vagas,

matar o medo,

"dilatar um Império",

com a Fé de um Homem!

(imagem retirada da net)


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Sábado, Abril 25, 2009





Sublinho, entre as forças,

a parede que de ti me afasta.

Uma parede escorrente,

tinta que a desvanece,

não a leva.

Vou-me,

entre três ou quatro cravos,

já esquecidos,

por entre gravatas e sorrisos adiposos.

A parede fincada mira-me,

vê-me com o garbo dos fracos e dementes,

dos que esqueceram o fortuito rodapé,

em maneirismos de sanidade.

A parede sem gritos, sem vitórias,

no mar dos limos já largados,

escureceu os olhos,

já húmidos,

ao meu desdém,

em perspectiva longínqua.



C'est magnifique l'Avril au Portugal...
(imagem retirada da net)

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Quarta-feira, Abril 22, 2009


quando pousaste a tua mão macia


nestas letras trémulas,


esse teu gesto, mais do que prometido,


era ausência.


As letras,em giroscópico lance,


fundiam-se pela madrugada,


obscura, ressonante,


triste na sua geografia.


Caminhava, ia,


soprando as páginas,


que houveras tocado,


delicada em ardor grácil,


mavioso.


A madrugada,vazia, destituída, entre brumas,


já te não toleravaa decifração...




(15 de Abril de 2009 16:41 em moriana2 inspirado em Fernando Guimarães)

Variações sobre um tema bailarino


Bailarina de papel,

volteias fincada

num velho burel,

em risos de fada.


Rodeias, giras, sobes.

Quem irá cinzelar,

em cisco d’ouro, cobre,

vórtice assim lunar?

Num hirto espaço,

tinta as tuas mãos

de grácil harmonia.

Louca, ágil, rodopia!
Corpos livres, sãos;

em subtil, lírico passo...



(imagem retirada da net)

Terça-feira, Abril 21, 2009

Escritos da Casa VII





Açambarquei o barco,

os remos, o leme;

queria escorregar numa sirga...


Água,

limos,

fogo,

cárcere,


Ar!!


pó,

terra (...)
(imagem retirada da net)

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Segunda-feira, Abril 20, 2009

Escritos da Casa VI

Um caminho mal atalhado no meio de roços, flores espinhentas. O atalho estava numa bússola louca, num caminho tão bem desenhado, um esmero em cada traço micrométrico.
Rastejar, sentir o roço das gravilhas, calçadas, ramos; sem ver o fim do princípio, o fim de nada, átomo, sequer de uma esguia fumarola de medo.
Cotovelos, joelhos, botas esmagavam-se sortidas num corpo que já seria um resto de absurdo insecto. Havia apenas a postura mental que lhe forçava a espinha, numa tala vertical roçando deuses feéricos, não habitando ainda as entranhas dos humanos.
Sim, o caminho. Não esperava uma mão, sequer, dos seus deuses. Aconchegava-se na sua adoração, no amor de cada homem. Egoístas. Talvez a resposta venha dos ressentimentos.
Mas agora, o caminho. Não ficaria ali, na casula, de restos de bosques que ia vestindo.
O sol de Inverno foi cobrindo um sorriso, uma posição abençoante. Dar e receber do seu peito fora, enfim, a sua rota, ponto de partida.

Escritos da Casa V

Afundou-me a água,
soprou-me lenta.


(...)


Quando verei

uma cratera líquida,

em mar de sopros designantes?

Uma fuga

de cores matizadas

(em Sibelius...)

Escritos da Casa IV







Junto à cabeceira,

um livro,

deslavado em teias de nada.

O vazio já era esteira,

em volta o nada.


(...)


Gostaria de ser

nave-navio,

de loucas atracções,

em caminho levante,

em jeito de fura

das teias de nada...
(imagem retirada da net)

Escritos da Casa III

Veio-me o sorriso,
já nada no jardim
suspenso na cercania.
apenas o sorriso,
em jeito de vitória,
sem vazio,
em nós,
já lisas as cordas;
fios que já não eram comigo.
Sorri, entre lágrimas baloiçantes...

Escritos da Casa II


Quero que a cabeleira do Tempo
cubra as faces do Inverno;
que os ramos se curvem,
ante as horas
compassadas
de cadência eterna.
Quero moer as marés,
raspar os fundos
das lúcidas conchas,
das madrepérolas suspensas,
cercando naus esquecidas
em rotas vagas,
vagas soltas
mirando o nascente.
(imagem retirada da net)

Quarta-feira, Abril 15, 2009

em si menor...

Partiu.

Largou a cítara,
a harpa,
o falsete até,
As mãos, ambas,
os dedos dedicados,
o allegro,
tudo se ia em crepúsculo.
Os seus passos cadenciavam
o longínquo.
Lentamente, afogava-se O som.
Uma manta de retalhos,
um quinteto de cordas,
cobriam vagarosamente,
a ara sacratíssima.
Soprava o som,

aquele som

em si cada vez menor.

O nada.

Menos...


(imagem retirada da net)


Domingo, Abril 12, 2009

soneto

Bailarina de papel,

volteias fincada

num velho burel,

em risos de nada.



Rodeias, giras, sobes.

Quem irá cinzelar,

em cisco ouro, cobre,

vórtice assim lunar?



Num hirto espaço,

tinta as tuas mãos

de grácil harmonia.


Louca, ágil, rodopia!

Corpos mortos, vãos;

sinistro, fatal passo...


(extraído do blogue em que participo GPS)


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Quinta-feira, Abril 09, 2009

missiva... missão

Cara amiga:

Desfrutei da sua ausência.
As horas foram-se,
quase espiadas.
Fiquei quieto,
saboreando o sossegado silêncio,
sorrindo simples ao sol.
Entreabri a alma,
o coração,
partilhei vitórias,
passadas.
Amiga,
o seu partir
levou-me o vitupério,
o amargor,
a fétida bílis.
Amiga,
o chamar-lhe "amiga"
não será estranho,
paradoxo,
perfídia sarcástica?
Não:
partilhamos
o abrir das ondas,
o renascer das tílias,
o apontar da trajectória
duma qualquer lua,
da harmonia mundi.
Entre os abismos,
unimos o que nos afasta.
Isso basta.

Seu,
Jaime

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Domingo, Abril 05, 2009

Carrocel

Escorregou,
desceu vida acima,

de pináculo em sombra,

esgueirando-se em caminhos de volteio.

Reviu os malmequeres,

os goivos,

aromas antigos,

efervescentes,

planos sem sobressalto.
Torceu-se,
engalfinhou-se,

mergulhou nas fronhas

de um passado sangrento,

antes do cume rompante,

acutilado,

num cristal de azul baço;

aprisionando

a dor sem esperança.

As sombras,

as luzes,

as duas irmãs,

num saco de Pandora....
(imagem retirada da net)

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Domingo, Março 29, 2009

Um triunfo

(imagem retirada da net)

Se morresse agora,
seria mais um pião

girando em pós

de sepultura.

Faria uma festa,

um alegre triunfo,

todavia solteiro,

naquele sonho dependurado.

Seria como se fosse

aquele último dia,

mais esquecido,

estonteante,

em malhas de pião,

de meninos antigos,

calções e chapéu,

esquecendo-me,

levando os despojos

de uma funérea "garden party".

(inspirado num poema de moriana)

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Sexta-feira, Março 27, 2009

escritos nas janelas

Escrevo para me não esquecer
que devo escrever.
Raspo o suor,
escorro-o sobre as letras,
escavadas.
Ainda não encontrei a palavra,
a maldita, mal dita palavra.
Sobro-me: entre dois pontos,
uma vírgula ou um ponto final.
As mãos, a cabeça,
ferem-se duma esmola
de expressão.
O português foge-me,
escapa-se-me entre dois,
três dedos.
Remiro,
vejo e revejo.
Onde está o que desejei?
O início?
Par de bandarilhas, uma pega de caras,
eis tudo.
Uma vaga volta à arena,
sem triunfo ou ânimo, talvez.
(...)
Eis-me aqui.
Todo.

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Domingo, Março 22, 2009

caminhos

Ter sentidos em afecto impressos;
escalar o momento da avareza
numa multidão de algas soltas,
cor de chegada a uma gare esquecida.
Sim, vi os carinhos
entre ruídos infernais de carruagens,
limos esvoaçantes
entre quaisquer alavancas para o dia.
Era noite ainda,
e os restos de sargaços eram trazidos
pelo vai-vem das máquinas
em deslizes faltosos,
nas linhas
que me segredaram ser da vida.
Esperei.
Soube que nas minhas palmas
se estendiam afagos sem destino,
avaros,
ínvios,
invictos na sua cruz.




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Quarta-feira, Março 11, 2009

poema em enredo

(imagem retirada da net)




(...) encontrar um poema


nos bolsos duma gabardina amiga.


Entrevê-lo entre duas gargalhadas,


ao entardecer d'avenida,


entre pombos e migalhas.


Vislumbrar o poema,


ingeri-lo de cor,


derramá-lo em cascatas.


Circulará hoje esse poema?


Fará leitura geográfica


em cátedra impante?


Ou será um bilhetinho,


passado à socapa,


entre dois trejeitos


e um bafiento sorriso?




(inspirado em moriana)

Domingo, Março 08, 2009

entre

Entre dois pingos de água,
sorriu um lago.
Entre duas lágrimas,
sorriu a esperança.

(...)

Entre dois pensamentos,
surge a amálgama
do desespero.

Sexta-feira, Março 06, 2009

sacrossantas mãos



Por mil vezes que partisse,
bornal entrelaçado nas espáduas
(cálidas, quase vãs),
por mil vezes que voltasse,
litúrgico acto de despojo ,
nada me reconciliava
com a tua fronte longínqua, genial
(dizia-se…).
Um bornal,
ciclicamente desnudo,
um acto de pobreza,
uma ausência de abraço
terno, fácil.
Teus dedos finos
tanto se erguiam,
que refulgiam o divino.
Envolviam-se, então,
em tão veras crenças,
quantas as vezes em que meu bornal
marchara na sua muda obediência.

Prudentemente,
escassamente,
sorriste-me.
Meus lábios iniciaram a partida, então.
Meu bornal, agora completo,
agora leve de si,
encetava, o curso
da pobreza,
da obediência,
de uma castidade
(fidelíssima afinal...)



(imagem retirada da net)

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Quinta-feira, Fevereiro 26, 2009

cristalino

«Mil anos que escrevas»,

disse,

«não saberás a quem»

Maria Grabriela Llansol Causa Amante


alguém te reconhecerá.

Foste o livro,

serás o rodapé;

hoje bit,

amanhã ficheiro,

pasta,

c:/


(...)


adormecerás serena,

palavra feita;

obra embutida!!!



(22 de Fevereiro de 2009, 5:21)




Domingo, Fevereiro 22, 2009

verbos de ir

nunca o regresso fora tão desejado,

nunca as paredes,

os mosaicos,

a luz, matizada por velhos cortinados,

esfumados num quotidiano voraz,

nunca nada do me que fora tão meu,

fora assim tão sorvido.

"Construir o caminho para que ele exista"...

dar repouso às sandálias, ancorar;

sereno é o homem,

que apenas tem o céu

acima da sua cabeça...



(a partir de um poema de Paula Raposo)

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Sexta-feira, Fevereiro 20, 2009

Escritos da Casa I


Ergueu-se.
Espreguiçou as asas húmidas.
Esticou o pescoço;
um grunhido sibilino,
voraz, feroz, estrondoso.
Silencioso,
saltou a pique e,
meus ouvidos silvaram
em latejos pulsados


De Archaeopterix nada tinha.
Pairava em relampejos infrasónicos.
Ouvi-a:

“Sou o colosso das terras,
Dos mares. Sem mim,
Ninguém voga,
Vagueia,
Derrota!”

Virou-me o bico,
sarcasmo nos olhos,
raiada uma loucura:

“Não estás no Bojador,
mas aqui te prendi,
aqui te tenho e,
nem por forças
d’El Rey!
do Senhor Deus até!!!!
Daqui sairás, viscoso!!!
Por força da minha vontade,
pelo poder que é meu!
Pela raiva
De estar só.”

(imagem retirada da net)

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Domingo, Fevereiro 01, 2009

DESATEI,
ATEI NÓS/LAÇOS,
RIMEI.

MIREI A
EITO A EFABULAÇÃO ERMA.

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Quarta-feira, Janeiro 28, 2009

CONCENTRAÇÃO

Não, não conheço Treblinka,
Auschwitz.
Não divisei Eichmann entre secretárias risonhas, cínicas.
Mengele, Goering
nunca me foram apresentados.
Memórias rodadas,
transparências dolorosas.
O trabalho,
amigo do pão;
a pá, amiga da vertigem,
já não tombavam em verticais gozos lacrimais.
Não vi aqueles
que hoje,
veriam Treblinka, Auschwitz
em cada canto da sua liberdade incógnita.
Queridos alentos,
aplaudem
Eichmann, Mengele, Goering.
Suspiros, sussurros,
vagas de torcida inquietude;
caem três tordos,
três abutres gargalham,
nessa queda elíptica,
raiz quadrada da derrota estatística,
função singular de um "rouge"
assim petiscado,
numa fossa alva,
viva de memórias farpadas,
armas sem cravos,
gargalhadas reversíveis.

(imagem obiterada)

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The art of stealing

Steal heaven,

stars maybe.

Never steal a heart,

or a tiny cloud,

for they'll

hunt your soul

forever.

Steal me when I'm standing still,

steal a violet,

or a bike.

Beware of your hands,

for they steal

nothing worthy;

a wearable cricket

is to find

in one's pocket.

Try a grain,

a bit of sand,

all kinds of air blowing.

Maybe they'll listen

to your diving into a tricky foam

somewhere in Venus...

(inspirado num poema de Jim Jarmusch em moriana2)

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Sexta-feira, Janeiro 23, 2009

teclas

Sonho na ponta do teclado,

na ponta dos dedos,

na ponta da unha.

Não há estrelas,

não há algodão,

não há aparato.

Sonho com cores que não há,

pessoas que nunca o foram,

fazendo o que nunca fiz.

Uma alma assim vive,

e um sopro tangente

não a sulca,

vibra-a!



(a partir dum poema de Paula Raposo)

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beijo


O beijo esvoaçou.

Ela pintalgava-o de esperanças,

mas o beijo,

aquele beijo-pássaro

amava mais os seus lábios,

por entre macias flores de segredo...
(a partir de um poema de Paula Raposo)
(imagem retirada da net)

Domingo, Janeiro 18, 2009

algoritmos de vida...

Esqueci o sonho,
ele esqueceu-me:
deambulei, olhos lívidos
de espanto,
pela maré fria da saudade.
Fui só,
medi meus passos,
visei madrugadas,
que só caminhos de longe
me trariam.
Vi sóis nascendo,
em horizontes casuais;
ocasos perdidos,
entre rochas dispersas.
O sono sem sonhos
afastava-me da aragem,
do corpo.
Misteriosa Lua
que, gentil,
me depositou
na Estrada de Santiago...

(imagem retirada da net)

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Terça-feira, Janeiro 13, 2009

melífluos desvarios

o mel...

o mel foi sendo esquivado:

galgou ombros,

risonho, abraçou o pescoço,


subiu boca acima,


sorveu-se pela língua


(casta...),


aliou-se às lágrimas


(secas de tantos rostos enegrecidos).



(...)



A palavra,



encrespava-se num rio,




sem margem,




sem destino.




Um só nome brisava, amável,




numa candura




filha dum poente,




brilhando-lhe as costas,




ombros,




uma boca silente,




empalada em virginal anseio.



(inspirado num poema de moriana)

(imagem retirada da net)



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Sexta-feira, Janeiro 09, 2009

transcrição (...)


"Sou a gaivota

que derrota

todo o mar tempo no mar alto

eu sou o homem que transporta

a maré povo em sobressalto"

(José Carlos Ary dos Santos in As letras das canções)


Trepei ao poente,
trouxe o meu povo.
Êxodo letárgico,
a busca do sorriso.
Lentas,
gaivotas deslizantes,
em rotas de golfinho.
Inquieto, aquele povo-gente,
mirava um susto de mar irado.
Lobriguei caminhos,
atalhos de fuga.
Alguém quis ciciar uma oração;
o tempo fora longo, dorido,
assim a prece.
Longe, a fúria dos donos das vidas.
Agora, podíamos estacar ali pra sempre.
Mas a revolta fora nossa,
partiríamos menos amarrados,
mais nós!
Assim seria,
entre vagas,
entre medos,
entre tanto!!
(foto extraída da net)

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Quinta-feira, Janeiro 08, 2009

(des)contenção

Amotinei-me!
Aticei-me a raiva,
a ira, a fúria,
subiram e desceram meu estômago,
rilharam-me todas as entranhas;
nada sobrou dos seus raides.
Enfunei o o restante orgulho;
não se içava.
Acicatara-me forças demais.
Esfarrapei-me em frente,
num caminho que não era meu.
Cães do Hades
foram-me açulados.
A dignidade restante
levou-me ao destino:
o covil dos sabujos
ladrões de almas.
Por que lá fora?
Tinha uma entrega.
(imagem retirada da net)

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Terça-feira, Janeiro 06, 2009

(...) vi-te há 2 mil anos em Anticetera


O tempo não te conhece,

enfuna-se no nada,

e, no vazio, segue uma pluma

de dourados futuros.

Queria que me visse,

e que te apagasse de ti

e que me arrebatasse também.

Para onde?

Afagados no seu bafo presente,

talvez espíritos dalgum Natal,

talvez coisa nenhuma.

Será o oco cântico

que nos velará,

do passado até nunca?



(a partir dum poema de blindness)
(imagem retirada da net)

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Segunda-feira, Janeiro 05, 2009

La solitude? Ça n'existe pas!!

Quem não amei, os filhos que não gerei,
as bicas tomadas obstinadamente a sós,
o rosnar uma resposta a quem me interpelava,
o desencorajar de qualquer relação.
Minha garganta seca de nada dizer; saberia eu ainda falar o que pensava?
Não importava. Nada, mesmo.
O esconço quarto alugado em que passava as férias, mirando um Tejo trazendo e levando partidas e chegadas que eu nunca faria. Era um rio curioso, quase metálico, que me ofuscava e atraía. Saía então, só com um fito: aquele plúmbeo glaciar de afectos, meu igual, meu irmão.
Para mim, Lisboa era o mês de Novembro:
frio, preparando o chuvoso Inverno;
o gozo que me dava ouvi-los a vilipendiar o mau tempo.
Eu gostava daqueles dias: cada vez mais curtos em que cada vez mais cedo as ruas se iam esvaziando. E eu cada vez mais só, envolto na gabardina, águia avançando
pelas bátegas duma água doce
que me abençoava a garganta.
Ah! Doce solidão
que sempre me acolhias em teus braços pétreos!
O teu silêncio eram a magia,
o prazer,
que me aguardavam no fim de cada dia.



(...)


Abri cuidadosamente a caixa de sapatos;
espreitei docemente tudo o que havia feito:
tudo, tudo mesmo
caberia numa caixinha de sapatinhos de bebé.


(inspirado num texto de moriana)
(imagem retirada da net)

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Sábado, Janeiro 03, 2009

(...)

O corpo foi deixando esvair-se,
um calor só enregelado
pelas luz das estrelas.
A claridade trouxe a paz,
o sossego;
o corpo deslizou para fora,
sabe-se lá porquê...
Rangeu a chave,
esperou-se outro corpo,
menos apressado, talvez.
A contra-luz,
a bailarina sentou-se grácil.
As estrelas aqueceram.
Nalguma lentidão dum "Quebra-Nozes"
escorregou, respirou pausas,
o seu corpo trouxe o calor
do teatro,
do parceiro,
das palmas,
tantas, tantas,
que saltaria dali,
em pontas,
numa fuga soberba de cisne...
Agora,
o sorriso,
a macieza daquele ar,
morno, violeta,
esqueceu a bailarina,
a mulher,
olvidou-se de tudo, de todo.
E do céu imaginado,
choveram estrelas cadentes...



(a partir dum pensamento de moriana)


(imagem retirada da net)

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... feixe...


...enquanto, contritos,

contemplamos o solo de nossas vidas,

tridimensionalmente ocas,

a luz do perdão penetra-nos,

humilde,

lenta,

suave,

tranquilamente,

quase em ar de desculpa;

lá fora,

os campos são fecundados

pelo amor da enxada,

pela força do camponês,

pela Graça do Senhor.



(inspirado num poema de Graça Pires)


(imagem retirada da net)

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Quarta-feira, Dezembro 31, 2008

Para lá...

Sentou-se no lusco-fusco

entre duas pedras de maresia.

Um vento de além-vida

cobria-lhe gentilmente

os cabelos de sal.

Sentara-se ali

havia minutos;

trezentos e noventa anos antes,

uma memória vislumbrara

a nesga do porvir duma nação,

aquilo que a salvaria

de si mesma.

Um rei, um príncipe, um povo,

"uma Fé, um Império".

Sobrara o sonho, os cabelos salinos.

Um vento carregado de naus

enchia-lhe os pulmões

e o sentir,

de uma História

que lhe era tão hereditária

como a cor dos cabelos de sal.

Uma Nação fora para lá de Alexandre,

no seu regresso trouxera o esquecimento...

a que nem Alexandre fora votado.


"Malhas que o Império tece..."
(imagem retirada da net)


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Terça-feira, Dezembro 30, 2008

parti - turas

As fronteiras esparsas,
os vincos estreitos.
A tristeza submersa
em olhos de carregados;
o embrulhar-se em si próprio,
os pulsos algemando os joelhos.
A mente estacada, distante,
cosida aos olhos cegos
num finíssimo adaggio.

(Lá vai o maluco, lá vai o demente...).



Um subtil despertar,
lento, suave
mas em progressão aritmética;
a mente desatando-se,
os joelhos libertando-se,
a tristeza transmutando-se
em sorriso largo.
Os pulsos berram de gozo!
A língua destrava-se em mil librettos!
O desejado allegro vivacce!!...
Os bolsos alegremente ocos...

(ou julgas que não existe ninguém que te veja...).

O amanhã fugiu serra acima;
este nanossegundo é,
e nada mais.
Há que trepar vida fora
para que a queda seja ainda mais fragorosa,
de borco para o nada,
para as lágrimas,
desejosas de lavar memórias.
Por que queres ser
"Requiem" e "Concerto em Ré Maior"?
Porquê a sumptuosidade,
porquê a soberba magnificente do génio?

Sofrer sempre,
ser ditoso
numa leve pausa
entre dós...


(em itálico, fragmentos de António Variações)
(imagem retirada da net)




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Domingo, Dezembro 21, 2008

Natal do poeta

Esperarei sempre esse nascimento,

estranhamente anual,

mas todo o divino é distinto,

vário,

singular...

Nasce comigo o calor,

o aconchego

que só um Deus sabe dar.

Os homens podem virar-se as costas;

mas até as pedras gritarão

que Jesus nasceu


e que os brinquedos,

e as correrias,

e todos os vendilhões do templo,

e as luzes,

se ensombram pelo Seu fulgor .

Só o poeta,

aferrado ao verbo

que compartilha feliz,

é abraçado pelo Deus Menino,

que lhe honra as palavras.

E uma cintilação se esparsa,

suave,

amena,

por todos os lugares,

traz o esquecimento

e deixa as lembranças

das palavras simples,

brandas,

claras,

do poeta

que aquele Menino abençoou...
(imagem retirada da internet)

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Sexta-feira, Dezembro 19, 2008

medievo





Caí-me sobre o caos.


Meus braços, pernas, todo


pendiam como roupa pendurada


numa qualquer ruela medieval.

Um velho suor,


doutras paragens,

transbordou de dedos


fatigados de batalhas


de outros,


para outros.


Só me restavam as armas


e memórias de sangues.


Só armas,


memórias apagadas


de verde,


muito verde,


das colheitas de nós.


Com a espada não se ceifava;


nunca se havia ceifado,


ou feito o que fosse.


Pintarroxos, grilos,


já não o metal,


a imprecação.


Endireitei-me,


a espada sob o queixo;


nada era dos meus olhos;


então, meu exército,


pela primeira vez,


retirou.


Sem plano de batalha,


derrotado por si próprio.


O inimigo: eu mesmo.

Dera-me a el-Rey.


Nada tinha,


nada era.

Um espírito malquisto,


uma maldição errática.

O esconjuro de ter sido d'el-Rey...


Deus guarde el-Rey!



(Foto tirada da net)












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Quarta-feira, Dezembro 17, 2008

regresso/ida





...de regresso a um ponto,

sem coragem;

um amargor desperto,

que nem reacendeu,

sequer,

memórias agonizantes.

Caminhou,

deixando traços no pó.

Afastava-se aquela figura adelgaçada,

partindo sem a ousadia

(do regresso).

Sim, o arrebatado

(algures)

já não reacende.

As amendoeiras, essas,

carregavam a sombrados seus passos,

um ponto entre bagos de pó,

afunilado por um Sol baço

quase esquecido...


(inspirado num poema de moriana)


(imagem retirada da net)

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Terça-feira, Dezembro 16, 2008

(homenagem...)

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim



(Natália Correia in Defesa do poeta)






Quero um lápis,

uma tecla,

não, muitas teclas!


Quero escrever-me,


e desafogar-me.


Quero esfolar-me as entranhas,


o juízo, a demência absurda


de quem só já tem a liberdade.


Quero ser a antecâmara insuportável


do nascimento,


da morte (in)esperada,


da alegria e da felicidade e do perdão,


e da fúria e do choro e do ranger de dentes.


Sim, quero chegar a minha vida aos outros,


sem que eles me conheçam


e me execrem ou aplaudam
A indiferença com que os miro,


leva à rojo minha capa de desprezo.


Quero, com o que escrevo,


viver,


mais


e mais


em mim!!

(fotografia retirada da internet)

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Domingo, Dezembro 14, 2008

ocularis

Diz-me que desprezo é esse
que não olhas pra quem quer que seja,
ou pensas que não existe
ninguém que te veja
(António Variações)



Meus olhos tropeçam

no esguio ar dos outros.

Arrogo-me ao desdém

e caminho

num luto por mim mesmo.

Meus olhos implantam-se

nos negros que vêem;

tropeço em memórias,

sinais.

Olhos inquisidores,

olhares, sempre olhares.

Cúmplices, reféns

de minhas mãos

que os embalam,

que os regem,

em majestosa cadência,

em sumptuosa ínsula...



(foto retirada da net)

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Sexta-feira, Dezembro 12, 2008

o que carregas


Palavras ecoam,

entre rios,

paredes vagas.

Sorrio-me:

à madrugada

que carregas,

às letras, sintagmas,

Pessoa, é certo.

Tacteias um espaço

escondido nos teus limos,

nesses teus musgos,

que só o Sol sabe.

Ganhaste o tempo, brindou-te o caminho,

o teu canto é a tua paz!!


(inspirado num poema de Helena Domingues)
(imagem retirada da internet)

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Vontade d'el-Rey

Eras fraqueza.
Tua pele macia
levava-te ao sangue
num olhar.
Eras hipótese.
Sem certezas,
uma melancolia derramava-se
do teu ventre.
Eras cobarde.
A valentia fugira-te
havia muito.

El-Rey quis-te,
era a guerra.
Fugir?
Vestiram-te,
armaram-te:
um cinto de guerra,
braços e pernas
escondendo tua frouxidão.
Um escudo p'ra covardia.
Um capacete ornando
fantasias ausentes.
E a espada!
Cintilância na morte,
abrigo da vida.

(...)

Transfiguraram-te!
Da fraqueza, genica.
Da hipótese, tese.
Da cobardia, possança.
El-Rey te quis,
tu te tiveste,
guerreiro sombrio,
no rubro da contenda,
a morte escorrendo
pelo mundo abaixo.
Os olhos em El-Rey,
pés avançando
por seu novo jugo.

(...)


Vontade d'El-Rey,
acatam os homens,
o Império engradece,
a humanidade prostra-se!


(Grafitti situado em Telheiras, Lisboa)






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harmonia mundii

(...) em curvilínea lassidão.
Achega-se a ti.

Não há temor,

sorris ao seu riso,

dois, três alvos momentos,

abraças-te em pureza,

em quase inocência.

Tuas vestes alvas

levam-nas a brisa

de um mar que escorre perto de ti.

Regressam ao riso,

à prisão do olhar.

Reflectes-te, já tarde,

na maldição dum anjo, tornado negro,

por cintilarem teus olhos...
(baseado num poema de moriana)

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Segunda-feira, Dezembro 08, 2008

Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes
(Carlos Drummond de Andrade)

Eu também já fui marinheiro,
Bastava olhar o oceano
subia aos pináculos
Da memória e do sal da vida

Eu também já fui fadista
Bastava um trinado
a voz brilhava
e coros angelicais se vazavam em círculos de claridade


Sei agora,
que tudo o que fui,
escorregou,
fluiu,
e me perdeu
em esquinas
espumosas duma vida,
que, por frete,
por indiferença,
vou consumando
até o poeta, o marinheiro e o fadista se encontrarem
num ponto que ignoro.

Ferreira do Alentejo

O Inverno ia no solstício.
Samarra, botas,
despedida adiada.
Ficou aquele Sol frio,
quase acolhedor.
O silêncio,
sempre.
Rumores de brisas.
O canto dos juncos
embalados nos sapais.
Duas cotovias dispersas.
A lareira amena.
Um sino ao longe,
chama ao borralho.
O Inverno incitara a chuva.

Silêncio.

Alguém se senta num poial.
O Sol porfia aquela luzerna.
O cheiro das filhós
trá-los de volta.
Há um nascimento
que os invoca.

Silêncio.

Crianças em roda,
a mesa abastada,
a alegria toda,
um sussurro terno
sob aquele Sol de Inverno.
(a moriana, pela inspiração...)
(foto extraída da internet)

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Domingo, Dezembro 07, 2008

in aqua


Sobre a urze silvestre, ao subir da montanha,

Uma gota de orvalho, em manhã de esplendores,

Lucitremia ao Sol numa teia de aranha,

como um prisma em que a Luz se decompunha

[em cores.

(Gota de água, António Feijó, in Sol de Inverno)


Beijei tuas folhas trémulas,

naquela manhã

de Sol caótico,

madrugador,

em que se tremia,

em veredas invisíveis,

em que a montanha estava para lá

do dizível.

Mirei um reflexo teu,

urze silvestre,

o orvalho baço escalava-te,

abraçando a aranha,

em trémulos beijos,

quase virginais.

Invejei-te,

pelo Sol,

[que]
me mirava desdenhoso,

pelo teu orvalho mudo,

pelas aranhas

tuas companheiras de vida em luzes cálidas e díspares.
(imagem retirada da internet)

Quinta-feira, Dezembro 04, 2008

terra, ar, fogo, água


Enrolei o mar,

sob os braços;

as narinas imersas

no grito pulsante

da vaga

solta até à Lua.

Águas trémulas,

remoinhos pétreos,

sábios vazios.

(...)

Escalei a montanha,

estendi o mar sobre a relva;

desencontro de longas memórias.

Onde estavam tantos outros?

Para onde a púrpura do poente?

As águas esquecem as fúrias,

em oráculo se quedam...

(...)

Então,

ao leme da alma

ergui-me,

sorrindo à luz, ao calor, ao vento, à bruma

e fui, em passo de pastor,

fruindo a vida...


(inspirado num poema de blindness)
(foto retirada da internet)

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Quarta-feira, Dezembro 03, 2008

come out, come out wherever you are


O medo possui-me.
Sabe-me.
Na minha almofada,
ele escorre-se
tão lesto,
que temo a sua partida.
Brilha-me os olhos no escuro,
mostra os dentes quando acordo.
Fico inseguro,
laivos em pernas trementes.
Canto-lhe "lullabies",
sonda-me em jeito de quase fim.
Onde pára a sua alegria vampírica?
O seu jeito de borboleta?
Caminho longe,
passos quase firmes,
segue-me um Frodo bamboleante...

(a partir dum poema de moriana)
(imagem retirada da internet)

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Terça-feira, Dezembro 02, 2008

demente

Lá vai o maluco,
lá vai o demente,
assim te chama toda essa gente.
Mas tu estás sempre ausente
e não te conseguem alcançar.

(António Variações)



Sim,

tenho os olhos,

guardados na gaveta das dobras

onde fica a dor de ontem.

Extraí e destilei a fuga;

caminhei lado a lado

com a raiva do nada;

o medo esgueirou-se
pelos pensamentos adentro.

Houve receios almejados,

marinhando pela alma longe,

fugidia.

O povo sabia o demente,

e nada tinha;

o demente tinha o ser,

o finito,

o nada,

o tudo,

o dobrar-se na fantasia,

e adormecia nos baixios

da memória.


(foto extraída da internet)


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Domingo, Novembro 30, 2008

Seaside Resort *****


Pombos aterram,
sobrando dos céus.
Não há ouro em areias,
ou limos vestais
para os acoitar.
Enterram as patas
em sobras,
quase expelidas.
Não vingam em dorsos,
já secos, gélidos.
Entre a quase morte
e um coração parando,
há um nada de poente.
Um mar cinza baço
força um adeus;
já as flores definhantes
se enrolam na noite lívida;
Um céu seco, escuro,
apaga aos soluços,
aquele “seaside resort”
que nunca nada excluiu…
(foto extraída da internet)

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Quarta-feira, Novembro 26, 2008

Finis


Não há eterno;

o infinito prometeu sua morte.

Já não vivemos,

as promessas

caíram em mãos indiferentes.

Já nem a tua voz

me leva à resposta.

As palavras doeram,

na ruína dos afrescos;

já não (h)ouve um coração;

estradas solidárias

não carregam o sol da manhã.

Fugi;

da minha boca vazou o silêncio;

meus pés julgam-se em atalhos,

em atalhos de bruma.

Não há fado,

sina,

o sempre.

Apenas uma luz fugaz,

entre dois palmos de fumo.

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Segunda-feira, Novembro 24, 2008

Artur

Usei o ferro,

golpeei a fronte,

arrastei o manto;

olhei pra trás;

a minha sombra,

só.

A lança, a espada, o escudo,

o pó os enlaçava,

foi-se a montada,

a demanda,

a procura,o rasto.

Envolvi-me naqueles farrapos,

outrora eu.

Nada onde retomar,

os caminhos haviam, finalmente,

suspendido os traços.



Algures,

entre matas de jasmim,

uma velha coruja abismava os olhos,

numa queda quase lenta,

a busca

quase em dor de ave.




(Fotografia de J.N)

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Quinta-feira, Novembro 06, 2008

...tocata e fuga

...arte na fuga,


no partir em doce delírio;


não há pontes,


só caminhos doridos.


Entrei destino adentro, o tempo comigo,


a falésia acinzentando-se,


sussurrando o ar,


pontiagudo na fronte.


Caminho,


já não o há.


Invento, fantasio,


sobreponho-me, já nem vagueio.


Só o tempo insiste,


só o tempo me arde.


Um mar claro de escura lua,


persiste num farol,


tremente como o calor que me leva.



(inspirado em Paulo Renato Cardoso Libertação (excertos) in Órbitas Primitivas publicada por moriana)
(fotografia de J.N.)

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Quinta-feira, Outubro 30, 2008

Chopin, op. 9, nº 3


Esbracejei-me,
sorri-vos,
só as portas gargalharam desdentadas,
em gonzos, tramelas e guinchos de pó velho.
Um sopro de flautim
virou-me os olhos,
baços;
p'lo meio do caos,
o fosso revirado,
enojadas as lamas.
Em vogais,
em maresia,
troquei-me
por um quase herói financeiro,
seco,
tão cheio de números viscosos.

Em sonhos então:
Chopin, op. 9, nº 3
(foto extraída da internet)

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A Darwin

Quero resvalar-me entre dois caules de flor e, assim, trepar pela árvore evolutiva, qual preguiça ambulatória.

[...]

Ainda não me findou o pulsar;
já vou longe,
fuga pra cá
com olhos de lá.
Por mim,
entre murmúrios
de criadas d'outrora,
levaria meus olhos ao Céu.
Aqui, tão só o que restasse.

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Minha vida vai em dois sacos,
um transporta-me a mim,
o outro leva os meus laços,
nas mãos segue o meu fim.

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Terça-feira, Outubro 28, 2008



O caríssimo Pedro Nunes co-distinguiu-me com este prémio: http://pedronunesnomundo.wordpress.com/

Não, não vou dizer o costume: que fiquei muito surpreso, etc. No entanto, fiquei mesmo surpreso; este meu blogue é algo de quase íntimo, de muito só - em que, confesso, busco a "resposta" do comentário, é certo. Quem me conhecesse pessoalmente talvez fosse entendendo estas minhas "dualidades"....

Não estou a qui para falar de mim. O Pedro nunca deixará de estar no "círculo" das inteligências que mais admiro: é ágil no argumento, profundo e sabe buscar o "novo" onde eu via pouco mais do que os "media" dizem. Posso não me situar na sua posição política, mas revejo-me em muitas das suas opiniões.
Um grande abraço, amigo e companheiro de lides bloguísticas.

Assim:
Informações sobre o Prémio Dardos:

“Com o Prémio Dardos se reconhecem os valores que cada blogueiro(a) emprega ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. que, em suma, demonstram sua criatividade através do pensamento vivo que está e permanece intacto entre suas letras, entre suas palavras.
Esses selos foram criados com a intenção de promover a confraternização entre os blogueiro(a)s, uma forma de demonstrar carinho e reconhecimento por um trabalho que agregue valor à Web.
Quem recebe o “Prémio Dardos” e o aceita, deve seguir algumas regras:
1. - Exibir a distinta imagem;
2. - Linkar o blog pelo qual recebeu o prémio;
3. - Escolher quinze (15) outros blogues a quem entregar o Prémio Dardos.”

Eis a lista dos meus onze galardoados, pela ordem (alfabética) em que surgem no meu blogue:

http://blue-stars-js42.blogspot.com/

http://www.cortar-a-direito.blogspot.com/

http://www.estudioraposa.com/

http://www.moriana.blogspot.com/

http://www.moriana2.blogspot.com/

http://levacorrente.blogspot.com/

http://www.orionix.blogspot.com/

http://ministeriodoamor.blogspot.com/

http://www.portuguesapoesia.blogspot.com/

http://roseiraldoamor.blogspot.com/

http://samantarmohi.blogspot.com/

O fundo


... queria fluir-me pra lá do Outono,
das nuvens,
das pedras que me levassem
para longe dos caminhos rectos;
sentiria pois os pulsos livres,
dos cravos,
a fronte, quem sabe, já solta.

Esquiva a mente,
tocou no solo morto;
ainda não houvera
regatos secos e bravos,
que me levassem
para além do Novembro.

Fiz jus ao tempo,
sentei-me na pedra mais baixa do meandro.
Estacado,
estava ali,
atado às minhas rochas de vazio.
Cruzei a perna,
gesto de pose, snobe,
teatral.
Algo que ali estivesse vivo,
nem por mim daria.
Sorri (des)cansado:
ao longe, ao fundo da mina,
serpenteava o som esperado;
o meu peso, a minha canga,
encontraria agora o seu par.

(Fotografia de J.N.)






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Segunda-feira, Outubro 06, 2008

Subi ao sótão do desvelo.
O chão fora afagado nas minhas mãos nuas.
Das janelas saíam restos de lava,
fria, mordente.
A manhã não elevava o rosto,
surpreso no sufoco.
Pisei as tábuas:
caldo morno.
Desci,
pisei o ar,
o pó.
A parede estancou-me,
exangue.
Não,
não pude ter falhado...


(inspirado num poema de Gil T. Sousa, publicado em moriana2)

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Quarta-feira, Setembro 17, 2008

há caminho?


Longo é o vento

que me leva.

O caminho, solto, a gravilha desfeita

em bolas silvestres.

Estrelas derramadas,

céu cadente,

velando os seus.

A vontade esfumou-se,

assim,

deslizando numa métrica casual.

Um ar, em atalho de Norte,

levou-a silente;

às sete horas

a Lua despediu um Sol mortiço.

Gaivotas sossegam,

há estradas que jamais se cruzarão.


(a partir dum poema de Nucha)

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lar de volta


Cada canto sorri ao meu olhar. Cada canto também se recorda dos meus olhos, do meu corpo.
O soalho estala de prazer e o ar cintila ainda mais depois da separação.
Sento-me. Deixo-me enredar pelo ar faminto que me leva e traz. Nem sinto a rua, o barulho lá fora.
Apenas os cedros, os linhos, as maciezas, duma casa que torno rústica, me afagam e despertam.
Ouso mil sorrisos e sinto-me abraçado de volta.
Sou daquilo que espreito e as saudades são laços, são carris, são trilhos que me trazem de volta.
(a partir dum pensamento de moriana)

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Sábado, Setembro 06, 2008

shutting silences down


going through the waves,

shutting silences

wherever,

smiling favorite laughs;

a heart,

whence?

A vow,

escaping down my sudden eyes.

And a photo, silently posing

as an effortless

work of baroque art.


(a partir dum poema de moriana)

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Segunda-feira, Setembro 01, 2008

fotografia


Aqui perdia a vista,


ganhava o sonho.


Aqui sorria ao mundo,


cambaleava na paixão


do iridiscente,


adentrava-me na loucura.


Aqui poisava o braço,


o queixo,


o riso já maduro;


como criança mirava o vento,


fulgurante de mil cores;


aninhava-me nos prados,


nas colinas,


banhava-me nas águas,


fluindo na memória,


escorrente em encantos


dum outrora já fugido;




e ria... ria muito,


ria como se fosse


o meu último riso,


no meu último leito,


na minha derradeira espera.
(inspirado num álbum de blindness)
(Fotografia de J.N.)

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janelas


já as janelas se esgueiram,

e os campos se cobrem de fluidas
sombras.

Há pousio;

o sol foge,

a noite abraça-o.

Nas janelas,

já escuras,

rostos velam as manhãs.

Ali ao lado,

o mar,

sensível em algas de ouro,

em ritos de escuridão.

Há um ar opresso,

uma lua fumegante,

uma paz...

em prenúncios,

em quietudes desertas
de alguém já esquecido
(
a partir dum poema de moriana)
(Fotografia de J.N.)

Sexta-feira, Agosto 08, 2008

...entre os dedos


Levitam os ares,

sopram os encantos;

entre os dedos

erguem-se pedras,

rochas antigas,

em que os tempos falavam,

roçavam a memória.

Hoje, teus dedos sussurram suspiros,

trejeitos d'ontem;

as mãos recolherão

a imagem da terra.

Entre suspiros me deito;

há caminhos na terra,

sulcos de desejo,

a memória eleva-se,

o corpo amorna-se,

enrola-se,

abraça-se no vazio das imagens,

das falésias dos sonhos...


(inspirado num poema de moriana)

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Terça-feira, Julho 29, 2008

Passos

meus passos escorrem no esquecimento;
a casa, lenta, valseia,
muros acima.
Vejo as palavras
tão despidas:
lufadas de azul,
em laranja desmaiado.
Há sentido no que dizes,
nas tuas imagens;
há sons trotantes,
há miragens.
Verbos sonantes,
a areia húmida de passos despidos,
de memórias vagas,
com cinza em fundo.

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Domingo, Julho 27, 2008

...


...em nó me enlaço,

fujo, mas não.

Há um soco vão,

uma corda dura,

um arco maldito,

uma força,

uma razão louca,

em sangue jorrante!

Fúria vencida,

um quase vento,

um ciclone (a tua mão...)

ata-me,

larga-me em espaço vazio,

em buraco, em furo,

e enlaça-me

na doçura do quedar-se,

no borralho,

naquela brasa pulsante

onde o chão se foi,

e a cinza,

essa,

assim ficou...

(inspirado em blindness)

(Fotografia de J.N.)

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Segunda-feira, Julho 21, 2008

pray

Pray
may your walk
light my sunset
may I be
in your small pocket
in your nest
so that all sunsets
sunrises
and so
may fill
the upper end
that lies in me

(inspirado em Leonard Cohen, in moriana2)

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em definido arco


Em minha alma
um veneno se tece,
e espraia o medo,
a loucura finda.
Um sorriso,
em pose,
a lua sorri,
em minhas mãos
distas de nada,
corre um arco,
em vermelho púrpura,
em silente cruz,
uma curva,
um gemido sinuoso;
uma nota grave
em jeito de menor
riso,
de menor maldição.

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Quinta-feira, Julho 17, 2008

po(ente)

Límpido e arqueado,
gelou a minha passagem.

Assim,

sem cântico,

sem ponte, rarefeito.

O tempo o deixou,

a espera dolente,

do quase Agosto;

e o vão,

a abóboda insolente,

a catedral estática,

em pedra esfacelada,

(Salamanca esvaiu-se em areia, lembras-te?).

O medo,

o rigor torvo.

Águas esquecidas,

imóveis,

arco em ogiva perfeita,

gótico em bruma,

memória

em lugar nenhum...
(a partir dum poema de Nucha)
(Fotografia de J.N.)

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Quinta-feira, Julho 10, 2008

nós

Em nós
há enlaces;
há fugas;
nós anelamos laços
que, sorrindo,
desfazemos,
como meninos desatando as batas,
em fuga para as mães.
Há divinais laços,
há nós e amarras,
há amores,
e o toca e foge dos nós
que nós não queremos,

e desejamos em partida poente,
a caminho do vago

(vazio).


(a partir dum poema de moriana)

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Quarta-feira, Julho 02, 2008

em fuga


Não,

não criei o mundo.

Nem o corro,

demente.

Sorriram-me,

estenderam-me a mão,

rogaram-me que o possuísse.

Ri,

ri sem gosto.

O mundo tem-nos,

isso sim;

entre sóis e luas,

numa clara noite,

esquecida de memórias,

banhada de afagos esquecidos,

as pegadas rarefeitas,

submersas.

Morna a loucura,

o espanto,

entregam-me o mundo,

fujo dele,
fujo dele,
(...e fico!)


(inspirado por Menina Marota)
(Fotografia de J.N.)

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Quinta-feira, Maio 29, 2008

fluidez em dó menor


Flui o olhar,
o som,
a altercação.
Flui em sentido,
em pária névoa,
em gaveta;
aberto,
num súbito desdobrar
de umas asas altaneiras;
daquele voo
(esquecido)
na fluidez do raio.
Ecoam cravos,
percussões latentes também,
o ribombar das cordas,
o fluir do olhar,
da vista encantada.
Drapejam velas,
asas,
na fila desaustinada
daquele sopro,
em que nada se queda,
na queda dos olhos,
naquela altercação sonante...


(em 26/05/08, 19H40, estação do metro Cidade Universitária)

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Terça-feira, Maio 27, 2008

(...)...entre dentes cicio,
uma fala cega.
Um dizer em arco,
sem pilar,
em coluna de água,
baça.
Navego em quedad'água;
montes riem altivos,
há três ou quatro largos,
cinco caminhos verdes.



Um arco pulou em súbito desejo,
em brilho oco,
em estoque mosqueteiro.
Assim se juntou a ponte,
assim se uniu o fado...
(a partir dum poema de blindness)

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Quarta-feira, Maio 21, 2008

vitória...



(...) esse silêncio,



será a ausência,

a fuga cega,

o esquecimento opresso, longe;


já são nada:
o signo ou a lança,
a carne fincada, o ferro


(o não)

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Terça-feira, Maio 13, 2008

hoje é dia feriado

Espio-me pelas grades d'ontem.
O feriado não chegou a despontar;
restou a tarde,
o frio pela janela fora,
um gemido espinha acima,
olhos de longe,
em fuga.

(...)
A cadeira só,
um quarto soterrado,
as mão cortadas,
abertas,
secas...
antemanhã,
já dia silente -



(inspirado em Andreii Tarkovskii, in Moriana)

Quinta-feira, Abril 24, 2008

poder

Assomo-me,
nada me vê.
Ruas de ninguém,
praças, avenidas,
alamedas, largos,
becos, ruelas,
caminhos...
Espraiam-se campos,
montes, searas,
montados
em tão oca memória.

Um esquiçado labor,
um caos decadente,
uma parede sem cor,
um punho rígido,
(a dor mente)
uma batuta esquecida.

A varanda esqueceu-me.
Cegam-se-me as auroras,
trovejam-me os poentes.

Onde terei estacado?

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Domingo, Abril 13, 2008

passeiam os olhos,
a sombra cúmplice,
a voz esparsa,
o sorriso,
oco talvez.
Há um abandono,
um abandono tão final,
tão liso de dor
que a esquina ondulante,
se fixa algures.
E os olhos espraiados
já nada buscam,
no desenho falso
que os habita.

(a partir dum poema de musalia)

Sexta-feira, Abril 11, 2008

os vagos urros da candura (tributo, vago também, ao Surrealismo)

Entra e inclina o rosto,
entre a espinha e um esgar;
entra um ar sujo e longe,
entram pinhais esquecidos,
entram restos de si,
entra o caos e o rijo vazio,
entre nunca mais e ontem,

entre a saudade e a fantasia.

Entra, adentra a porta,
entre rasgos e o amanhã
entra o suspiro do nada.
Entra, boca fera embestecida,
entra face vadia,
entra riso esmagado,
entre deixas e restos,

entre cavos bosques e Everestes apenas.



O sol de Inverno mancha a luz sombria que se aquece nas margens. Já não há esgares, a esses, cobriu-os a margem do nada aquecida por aquele sol de Inverno.
Dois pontos - distantes léguas ou milhas ou alforges de silêncio entre si - já não marcam mais planos inclinados entre a espinha e um esgar, entre nunca mais e ontem, entre a saudade e a fantasia, entre rasgos e o amanhã, entre deixas e restos, entre cavos bosques e Everestes apenas;

entretanto, apenas...

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Segunda-feira, Fevereiro 18, 2008

Quisera ser forte,
tão forte,
que a erva fresca,

as minhas mãos

em teus cabelos,

o teu rosto,

me dessem a fuga

por todas as estradas,

largas de verde,

numa fugidia lança,

de triste bronze,

que me trespassasse

em teu esquecimento.

Que dos teus lábios

só escorresse

o grito cavo da busca,

a espera sem alma,

o gemido enrolado

nos ares dos sábios lamentos.

Queria que o céu de punhais

se cravasse a meus pés,

à boca dos cedros,

em funéreo círculo,

e que a tua memória

fosse só a cinza

das minhas cinzas.


(A partir dum poema de musalia)
(Fotografia de J.N.)

Quarta-feira, Janeiro 16, 2008

... aurora...


Desliza pelo tempo

uma aurora muda.

Entre os dedos,

sinto a lonjura

de dias que já não há;

em simetria dupla,

revejo meus passos;

na lentidão

dum desejo quase consumado,

a noite enrosca-se-me,

numa seda suave,

morna,

mirando

aquela aurora,

suave,

pura,

tranquila...

Terça-feira, Janeiro 08, 2008

DIZ QUE NÃO É UM MAU BLOG




Recebi este prémio através da Nucha Pedro do blogue http://orionix.blogspot.com/ o que desde já agradeço muito, mas muito mesmo; é um estímulo para continuar. O criador deste prémio tem o link do seu blog aposto na imagem acima. A tarefa é a seguinte:
1ºIndicar a quem foi atribuido o prémio(acima)
2ºAtribuir o prémio a 7 blogues que considere que até nem são maus blogues
3ºFazer referência ao criador deste prémio (link na imagem)
É sempre difícil, mas nomeei os blogues qure mais "companhia me fazem", aqueles de quem eu estou mais próximo, que mais consulto, aqueles que mais me inspiram.
Os meus nomeados são:

http://www.cortar-a-direito.blogspot.com/
http://www.moriana.blogspot.com/
http://www.levacorrente.blogspot.com/
http://clubedamafalda.blogspot.com/
http://www.ministeriodoamor.blogspot.com/
http://www.pedronunesnomundo.blogspot.com/
http://www.sefossemosgenios.blogspot.com/

Domingo, Janeiro 06, 2008

Novo Ano

Adornou-se
em simétrico traje,
acompanhou-se
aos outros;
esgueirou-se
em corpo de baile.
De soslaio repetido,
as horas
entravam-lhe pelos olhos
quase inquisitórios.
Saltou para o novo ano,
gémeo do outro.
Brindou
num sorriso farto,
e mirou o amanhã
em suave abandono;
mas trémula,
nada viu,
apenas um mar
lá longe,
longe,
em volume espesso;
ao meio, atravessado,
um atalho
que a separava do trigo...

(apartir de um pensamento de musalia)

Quinta-feira, Janeiro 03, 2008

Amistad


El vacio puede mirarte,
puede desear tus ojos,
tus labios;
la obscuridad puede intentar
seguirte.
Pueden agregarse todolos males
que asonbran la tierra,
el mar contra ti,
los cielos,
todo!!
Pero tienes dos fuerzas contigo:
tu alma
y el poder de la amistad.
Con ellas los desafiaras a todos,
con la mano amiga
tu brazo es mas fuerte,
con tus dos manos
y mas dos,
los muros se derriban,
los males se vuelven
a su infierno,
y tu vida se quedara
como la quieras...
Los amigos tanbien
son brazo y fuego,
coragen y bravura;
al largo de tus hombros.
(Fotografia de J.N.)

Sexta-feira, Dezembro 21, 2007

(???)


Tão perto

e o outro

vai-se esfumando,

a memória

já não lhe toca.

Há outros cheiros,

há outras cores nos ares;

olhos vidrados no nada,

pendurados em ninguém,

presos aos olhos

de quem passa,

silenciosos

revirando o chão.

Amor é nada,

vai,

deixa, deixa o obscuro gosto,

da ausência;

amor é nada,

deixa o travo da espera,

do frio nos braços

entrelaçados

em si.

Amar,

é amar o que não foi,

a fantasia,

o querer,

querer que o outro

fosse o que não era.

O amor sempre partiu,

numa fuga

infame.

(...)

Amor?

Melhor o frio

sem memória...
(a partir de um pensamento de blindness)
(Fotografia de J.N.)

Domingo, Dezembro 09, 2007

nós?

e eu quero,
um nó de forca,
para bem longe.
longe, afastado,
e os meus tempos
caminham furtivos,
assim a passo rápido
e distante,
onde as palavras já não se dizem,
onde nada existe;
e o húmus escorrendo pelas veias do tempo,
lembra este absurdo,
de uma vida que se torce,
não vem,
não retorna de sítio algum.
ao sabor da corrente
seguem memórias,
a alma calou-se há muito,
e há um cego
e um violino
à esquina do marulhar da solidão...

(a partir de um poema de blindness)

Quarta-feira, Dezembro 05, 2007

Esgueirando-me pelo tempo

Esgueiro-me pelas colunas do tempo,
rastejo entre as ervas altas de muitos verões.
Espalhadas as estátuas
lembram um futuro que não houve,
subitamente.
Colunas vazias,
não há docéis,
tapetes.
Sacerdotes erguendo oferendas
fumegantes,
ostensivas,
soberbas
em altares inesquecíveis;
tudo longe,
aras quebradas,
deuses anónimos,
um passado olhando o hoje
que agora se não vê.
Apenas o meu rastejar,
trémulo, escasso,
fugindo às poeiras de ontem,
as ervas ocultando
quem não tem memórias
de um tempo
em que os deuses
com um sorriso
possuíam tudo,
possuíam todos...

Sexta-feira, Novembro 23, 2007

"We all..."

Standing bellow the thin thread
of the void, shamelessly looking
at a point I could not reach,
I tried to keep my loneliness
untouched,
almost invisible.
I heard the noises
of ancient marches:
the flutes,
the violins,
all the dreams,
that made my heart
to jump forward,
into time,
to bounce
into space,
unveiling myself,
exposing me.
And still I stood
all by myself,
old,
ancient memories
trying to knock me out...(...)
All of a sudden
I heard voices,
songs.
A hand over my shoulder
and shouts of joy
all around me:
"We all stand together!!!!!!!"
(from a blindness's audio post )