terça-feira, 10 de julho de 2012

crime perfeito...

Tudo começou por ser estranho, como é já da praxe.
Parecia ter-se tratado de um crime. Suspeitos? Havia quem se risse à socapa: poderiam ser tantos que a contagem seria um exercício de futilidade.

            AG havia muito que aparentava ter-se retirado (era, apesar de tudo, ainda um suspeito).

            DB andava por essa Europa fora, aparecendo o suficiente para ainda ser lembrado.

            Quanto a SL tinha estado pouco tempo, era provável que nem tivesse muitas responsabilidades no assunto.

            Sobravam JS e PC: eram os mais recentes, eram aqueles cujos comportamentos poderiam denunciar algo. Sabia-se que JS estava fora, levando uma vida de alegre prodigalidade disfarçada de labor intelectual: suspeito! PC mencionara o assalto, trouxera-o para as conversas de café: suspeito? Havia até quem falasse em entidades estrangeiras: demasiado rebuscado?

            As pessoas estavam aturdidas, tristes, dobradas sobre as suas próprias carências. Tudo fora tão súbito: de repente tudo mudara, tudo se encaixara numa realidade nova e “teimosa” a que ninguém parecia querer adaptar-se. A escassez doía e, mesmo com promessas de dias melhores, mesmo com o encorajamento dos bons desempenhos, sobrava um gosto seco de ausência de infinito, do não-regresso dos dias felizes, em que ninguém se apercebia da felicidade, porque afinal era felicidade e ninguém a enxerga enquanto vive nela; é como a saúde, é como com as coisas que se tomam como adquiridas.

            Fui dar uma grande volta pelos portugueses: nos transportes públicos as pessoas aparentavam tristeza, como se a Selecção há muito não fosse feliz nos jogos efectuados, como se a inquietação escorresse pelas paredes depois de ter submergido toda a gente, como se o Sol teimasse em ser sombra e a Lua ausência.

            Viam-se agora mais pedintes que queriam comida e não dinheiro. Viam-se também muitos comentadores de TV a tentar explicar o inexplicável: nunca na televisão aparecera tanta gente a opinar, a zangar-se, a entristecer-se com a sua própria impotência.
           
No fundo, o facto de não se saber quem fora o perpetrador ainda deixava as pessoas mais baralhadas, isto não era um “crime perfeito”, não era algo se fizesse a quem tanto necessitava, “não se faz”, dizia-se, “não se podem assim roubar o Subsídio Férias e o Subsídio de Natal!”

(texto concorrente a um desafio de

(foto do autor obtida com telemóvel)

1 comentário:

Rafeiro Perfumado disse...

E, tal como na vida real, a culpa irá morrer solteira, ficando o crime sem castigo... Abraço!