terça-feira, 5 de abril de 2011

 A lenda do escultor

Assim termina a lenda
Daquele escultor:
Nem pedra nem planta
Nem jardim nem flor
Foram seu modelo.*

E na sua partida,
no rasto que deixou,
semearam rosas;
estavam certos
de que as suas imagens
alvejariam os céus,
no esplendor da ira;
e, no seu orgulho,
iriam zurzir o kitsch
- talvez a lenda
que o escultor 
tivera na fronte
e esquecera -

Assim termina a lenda,
e as rosas semeadas
trouxeram a paz,
e o povo benzeu-se,
murmurando um "Deo Gratias",
na calma preguiça
do cair da tarde.

(*Sophia de Mello Breyner Andresen,
poema Final in "O Cristo cigano")
(fonte da imagem:
www.descubraportugal.com.pt/,
claustro do mosteiro da Batalha)

3 comentários:

Graça Pires disse...

As rosas sempre trouxeram paz. Gostei deste "diálogo" com o poema da Sophia".
Um beijo.

Anita de Castro disse...

foi um prazer ler este poema onde a paz permanece nas rosas
um abraço

Lídia Borges disse...

Um dialogismo muito interessante dos dois textos e deles com a imagem.

Um beijo