domingo, 6 de março de 2011

Cãs
"envelheço com a boca muda, na salga da palavra impossível
até que se destruam as fábulas.
dobro os joelhos: as mãos de outros dias
como uma brandura atravessada de ruína." *

então, na mudez que me enforca,
estendo as mãos,
desnudas facas,
cobertas de ausências.
não atravesso o rio,
nem ofereço os pulsos às alturas,
apenas quero que as gaivotas
me coroem na solidez dos mitos,
no alvorecer do esquecimento.
agarro a forca,
as minhas mãos negras
tocam o regresso do bulício, 
e o silêncio torna-se pano de fundo,
no meio das ruínas do petit Trianon.
ao partir,  deixei as lágrimas,
soltei-as,
até que as fantasias fossem assoladas
com uma suavidade mesclada de desolação.


(fonte da imagem:
http://fineartamerica.com/)


(* in marés de espanto, o blogue
de marés)

2 comentários:

Rafeiro Perfumado disse...

"apenas quero que as gaivotas
me coroem na solidez dos mitos"

Isto cheira-me a ataque de pombos, mas com gaivotas!

Graça Pires disse...

Um poeta complementando outra poeta. Gostei imenso.
Um beijo.