sexta-feira, 21 de agosto de 2009

na(u)s




Cristalizaste
entre fios esquecidos,
as lianas de naus
que chegaram,
com gritos de partir.
A bordo,
os restos
de velhas equipagens,
a quem a surpresa
já não admirava,
a quem a vista
já trouxera tudo.
Sentiste o bramido
das tempestades,
o silêncio infecto
das eternas calmarias,
os risos dos velames,
os cordames
em bailados estrábicos.
No entanto,
mantiveste-te
cristalizada,
no rugido da nau,
no ventre da proa,
em jeito adormecido;
de facto,
suspensa pelas horas
de um livro vadio,
riscado pelo comandante
a quem já nada devias,
num ror oco
de coisa nenhuma...
(imagem retirada da net)

5 comentários:

Paula Raposo disse...

Gostei! Forte de palavras! Beijos e bom fim de semana.

maré disse...

às vezes também cristalizo
no ventre de uma noite de barcos.

suspendo-me, semi-adormecida, nas páginas onde desenho a lua, as marés e os seus bailados...

e julgo ouvir uma voz, talvez o lamento de um naufrágio.

Um beijo Jaime.

Obrigado pela ternura

Jaime A. disse...

Paula, obrigado pelas tuas passagens, pelo teu apoio.
Beijo e bom-fim-de semana.

Jaime A. disse...

Maré,
deixa-me, suspensos, poemas lindos.
Bem-haja e um bom fim-de-semana também para si.

silvana disse...

Acho que a imagem ilustra bem esse ton soturno das palavras "infecto"
"branido" "restos", entre outras.
Duas coisas foram marcantes para mim,
as imagens que usastes e a persistencia dos "r" em várias palavras, o que dá um ton de dificuldade ou repressão da leitura.