terça-feira, 13 de fevereiro de 2007

Partida

Lentamente,
ia-se consumindo.
Não tinha dores já.
Enrolava-se
sobre si própria,
a parede a esboroar-se,
do outro lado
o soalho
em vigas esburacadas;
A vida esvaía-se,
numa solidão morna.
Nem ousava olhar para cima;
Deus talvez a mirasse,
piedoso,
as mãos expectantes,
por entre as fendas do tecto.
Esperava passiva
que tudo se consumasse;
mas a dor,
aquela dor final
por que ansiava,
não irrompia nela.
(...)
Recordou-se então:
abriu os braços,
o queixo sobre o peito;
e nesse crucifixo,
assim partiu...

4 comentários:

helena disse...

Partir
acto solitário
de busca
de mãos
de mães
de dor sem dor
na posição fetal
ou noutra
partir de si
partir...

Um beijo

pedro_nunes_no_mundo disse...

A nossa obsessão por partir...
Porque será?

Mais que partir dali, "partir de si"? como dizia ali em cima a Helena?

Como é possível não nos conjugarmos connosco? Com quem mais tempo passamos, com quem melhor conhecemos?

Seremos demasiado exigentes com nós mesmos? Desagradar-nos-á conhecer tão visceralmente (ou tão monotonamente) alguém?

Partir para onde sem nós?...

Mera poesia.

pedro_nunes_no_mundo disse...

(Há coisas do camandro!
Por mais que releia este texto, a minha primeira leitura do último verso é sempre "assim pariu...".
Achas isto normal?)

:)

Joaquim Sobral Gil disse...

Talvez "partir" e "parir" não estejam assim tão afastados; o chegar e o partir: os extremos tocam-se.
(Mas que há coisas do camandro, lá isso há...).