sábado, 21 de agosto de 2010

palavras

Se as minhas mãos debulharem as palavras,
espera pelo Outono,
pelos rastos, restos das folhagens,
rojando-se pela terra dormente no seu sonho cavo.
Chegará, então, o tempo da sementeira,
e, logo por entre as papoilas,
as minhas renovadas mãos debulharão
as novas palavras
que os ventos, os pássaros, os arco-íris, as nuvens,
hão-de derramar
- pelas bocas ávidas:
nos campos
de concentração da vergonha;
- pelas bocas ávidas:
das fomes gritadas
nas ruas "cosmopolitas";
- pelas bocas ávidas: 
dos atropelados-desprezados
da "Sociedade".

Na fúria da paisagem rasgada de poentes,
ecoando ao longe o brincar dos meninos,
as minhas pobres mãos
agarram e urdem 
as últimas estrofes,
os últimos andamentos
de um hino-marcha
que arrasta consigo o pó
de quem se não quis vencido.

(fonte da imagem:



6 comentários:

Paula Raposo disse...

Continuo a gostar de te ler! Beijos.

Lídia Borges disse...

Palavras que cavam em busca da raiz de um tempo vencedor.

Um beijo

Vieira Calado disse...

Belo,

sem dúvida!

Um abraço

Graça Pires disse...

Jaime, um poema, com vida, com lucidez, Palmo a palmo a palmo distorcendo a imagem das razões que tudo justificam. Um poema de quem não aceita os hábitos de forma pacífica.

Daniel Silva (Lobinho) disse...

"Se as minhas mãos debulharem as palavras,
espera pelo Outono,
(...)
Na fúria da paisagem rasgada de poentes,
(...)
que arrasta consigo o pó
de quem se não quis vencido."

Fica apenas o meu registo de que há poemas que nao conseguimos comentar sob pena de lhes retirar a essência e até a beleza. Gostei muito.

Abraço

Clube dos Poetas Vivos disse...

Espero que não te importes que tenha levado comigo este poema para o CPV.
Um abraço